“Toma Conta da Sua Vida”, mas o dinheiro pode ficar comigo…
Provavelmente o viral "Toma Conta da sua Vida" fará dinheiro. Mas nada irá para seus autores.

“Toma Conta da Sua Vida”, mas o dinheiro pode ficar comigo…

Todo mundo já sabe das novas fórmulas de sucesso que surgiram na internet, então não irei me alongar nisso. Todos já sabem que um vídeo ou texto viral pode te tornar famoso instantaneamente e colocar seu rosto sobre holofotes. Além disso, principalmente com a fórmula do Youtube e blogs, a possibilidade de ganho econômico pode ser real. Talvez você seja chamado para a televisão ou vire o rosto de alguma marca, mas, mesmo se nada disso ocorrer, a possibilidade de ganhos econômicos com canais de Youtube ou sites, como esse, são reais. Casos como o de Felipe Neto, PC Siqueira  e Kéfera Buchman se tornaram comuns, com os youtubers ganhando destaque em todas as mídias. Mas olhando bem, o que todos eles tem em comum? Jovens, brancos e de classe média, eles se destacaram no cenário e ganharam os holofotes. Talvez a única exceção nos grandes nomes da internet seja Whinderson Nunes, o piauiense que ganhou espaço na internet fazendo humor. Vindo de origem pobre, ele afirmou que o momento mais importante de sua vida ocorreu quando conseguiu dar uma casa para sua mãe.

Porém não apenas de sucessos se faz a internet. Whinderson é a exceção. Vir da pobreza e ganhar fama por meio da internet não é uma regra. Outros tantos casos costumam ganhar os holofotes, mas jamais alcançam o sucesso dos citados acima.

A internet realmente trouxe grandes mudanças. Possibilitou que pessoas produzissem conteúdo e alcançassem patamares que seriam impossíveis sem um apadrinhamento por uma grande rede de televisão ou rádio anteriormente. Porém é importante frisar que as mudanças na rede não atingem nenhum tipo de estrutura do sistema econômico e social que vivemos. Mesmo com a alegada ampla democratização para gerar conteúdo, quantos dos mais importantes youtubers e blogueiros brasileiros tiveram uma vida mais pobre? Quantos deles são negros?

É pensar um pouco e perceberemos que as estruturas ainda são as mesmas.

E parece que não para por aí. Vivemos em um sistema baseado na exploração da produção. Pessoas mais privilegiadas exploram a produção de pessoas menos privilegiadas e constroem a sua riqueza em cima disso, criando uma divisão de classes. Na internet as coisas não parecem ser tão diferentes. Porém a coisa se torna mais profunda quando tratamos de criação de conteúdo em texto, imagem ou áudio-visual.

Dentro do meio até existe um certo código de ética sobre o roubo de conteúdo. Até mesmo uma palavra foi criada para designar isso. É o chamado “kibar”, que se originou do blog Kibe Loco, que se tornou imenso e fez muito dinheiro ao reunir conteúdo da internet e concentrar em um só lugar. No início houve a desculpa de disseminação de conteúdo, porém hoje há uma certa ética que abomina a kibagem. Pegar conteúdo de outros e monetizar (fazer dinheiro) em cima disso, ou mesmo gerar fama, é bastante criticado na rede.

Mas obviamente essa ética tem classe. Ela é completamente ignorada quando falamos de pessoas pobres. De pessoas que às vezes não tem nem conhecimento de que o conteúdo que produzem pode viralizar e gerar dinheiro na internet.

Imagine a cena. Um grupo familiar ou de amigos que vivem em uma periferia. Se juntam em roda e resolvem parodiar um hino da igreja. Com isso surge uma letra bastante repetitiva e engraçada, se baseando no ritmo da canção. E assim nasce um novo vídeo viral chamado “Toma Conta da sua Vida”. Esse viral já tem mais de 160 mil visualizações em um canal de Youtube. Ao todo são bem mais de 400 mil visualizações. No Facebook já passam de um milhão. Até a atriz adolescente Maysa o publicou diretamente em sua página de Facebook.

Se for contar ao todo, o vídeo já deve ter facilmente passado de 2 milhões de visualizações na internet. É o suficiente para alcançar um certo ganho econômico que certamente seria importante para aquelas pessoas, lembrando que elas são oriundas de alguma periferia do Brasil. Porém isso não ocorreu. Nenhum cheque do Google chegará à eles.

Diferente do cheque que chegará ao proprietário do canal “Nadinha Irônica“. Uma rede que tem, além do canal, Instagram, Facebook e site. Todos contando com muito conteúdo não produzido por eles. Alguns são de origem internacional, principalmente de jovens atores, mas também de pessoas normais. Porém entre os brasileiros se destacam vídeos e imagens que claramente foram feitas por pessoas mais pobres ou, em outros casos, por crianças. Alguns viralizam, porém os autores do conteúdo parecem não ganhar nada com isso. Já o “Nadinha Irônica“, apenas um exemplo entre vários que fazem o mesmo, certamente receberá seus cheques.

Tentei encontrar referência sobre quem eram os proprietários da rede “Nadinha Irônica”, porém em nenhum lugar essa informação está disponível. Realmente não me interessei em entrar em contato com os meios deles, já que, como disse, eles são apenas exemplos. Não estava interessado em conversar com eles, mas descobrir quem eram.

Informações do domínio www.nadinhaironica.com mostra que as informações sobre o proprietário são privadas e protegidas por proxy.

Fui até o site Whois, que revela as informações de propriedade de qualquer domínio na internet. Se procurarem por www.apertaotab.com.br, verão o meu nome lá, do idealizador do site. Porém o domínio www.nadinhaironica.com está configurado como privado. Isso significa que não é possível descobrir facilmente à quem pertence.

Isso significa que eles sabem que estão fazendo alguma coisa errada. Caso você seja conspiratório (ou realista), é possível até imaginar que seja pertencente à alguma rede que possui outros sites, canais e páginas de Facebook para ganhar dinheiro com conteúdo alheio. Todos eles crescendo e garantindo lucro sobre propriedade intelectual de outras pessoas. Nesse caso, sobre propriedade intelectual de pessoas negras que vivem em alguma periferia do Brasil.

Já sobre o vídeo em questão. Ainda não sabemos quem produziu ele. Nem mesmo o nome das pessoas que cantam a paródia. Talvez elas sejam descobertas e ganhem alguns minutos de fama na televisão. Porém não sabemos nem se houve autorização para que o vídeo se tornasse público. Talvez tenha sido passado pra alguém pela Whatsapp. Talvez tenha sido publicado em algum perfil de rede social. Talvez tenha sido postado em algum grupo de família. São vários “talvez”, mas apenas sabemos que os autores não estão ganhando nada com isso.

Ele também é apenas um exemplo. Assim como o antigo “Jeremias Muito Louco”, que teve sua imagem explorada até a exaustão por canais de televisão, blogs e canais. Provavelmente o sujeito também não ganhou nada com isso, afinal também parecia ser pobre e jamais o vi fora da situação dos vídeos em que apareceu.

E, assim a internet traz várias mudanças, mas mantém uma mesma estrutura de exploração. Similar até demais com a realidade fora da rede.

Rafael TAB

Rafael tem 26 anos e mora no interior de São Paulo. Diagnosticado com transtorno bipolar é fissurado por cultura pop e nerd desde os 9 anos de idade quando foi apresentado ao sítio do Pica Pau Amarelo e logo depois ao fantástico mundo de Harry Potter. Hoje é um grande fã de O Senhor dos Anéis e Star Trek. Tem fascinação por áudio-visual, tecnologia e games.
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