Star Trek Discovery e os perigos das soluções simplistas que podem gerar sistemas fascista – Parte 1

Star Trek Discovery e os perigos das soluções simplistas que podem gerar sistemas fascista – Parte 1

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A ligação da franquia Star Trek com elementos das época nas quais cada série foi lançada já é algo consolidado. Por mais que J.J. Abrams tente negar, não há como existir Star Trek sem crítica. A série clássica se referenciava à guerra fria. The Next Generation dialogava com o período de guerras no oriente médio. Deep Space Nine pegou muitos elementos da realidade pós 11 de setembro de 2001. Star Trek Discovery não foi diferente.

O início da série da CBS/Netflix foi marcado por uma mescla do material apresentado até hoje nas séries de televisão com os elementos cinematográficos mostrados nos cinemas nos últimos anos. Era a tentativa da série fisgar uma nova geração de telespectadores. Ela conseguiu isso com louvor. Seus dois primeiros episódios foram bem acelerados e tiveram uma ação acentuada. Também tivemos um apego grande à visões maravilhosas em CGI.

Ao longo da temporada isso foi mudando aos poucos. Vimos a série ganhar uma lentidão pouco a pouco. A mesma lentidão pela qual as séries anteriores se apegaram. E não se enganem. Um ritmo mais lento não significou uma perda de ritmo. O ritmo da série foi crescente e, certamente, ela se consagra em seu último episódio. Nele vemos a inteligência, e não a força bruta, ganhar espaço e modificar o ritmo da Guerra.

Resumão

Para os desavisados, é bom relembrar um pouco sobre o que Discovery mostra.

A imagem mostra os atores Shazad Latif (Ash Tyler), Doug Jones (Saru), Sonequa Martin-Green (Michael Burnham), Jason Isaacs (Gabriel Lorca) e Anthony Rapp (Stamets). O fundo é repleto de estrelas em um céu escuro.
Ash Tyler, Saru, Michael Burnham, Lorca e Stamets

No papel de protagonismo, temos Michael Burnhan. Ela é uma terráquea negra, criada por uma família vulcana após presenciar a morte de seus pais em um ataque dos Klingons. Muitos anos se passaram e Michael está a bordo da nave U.S.S. Shenzhou, tendo Philippa Georgiou como capitã. Algumas coisas acontecem e Michael acaba iniciando um motim que, posteriormente, causa a morte de sua capitã e o início da guerra entre a Federação Unida de Planetas e Império Klingon.

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Michael é condenada a prisão perpétua em uma corte marcial, porém vê seu destino mudar. Ela é requisitada pelo capitão da nave U.S.S. Discovery, Gabriel Lorca. Lorca desde o começo apresenta um comportamento diferente do resto da frota estrelar. Ele é um sujeito militarista e que demonstra não medir esforços para vencer a guerra. Na nave Michael conhece algumas pessoas que serão muito importantes para a história, como os cientistas Stamets e Sylvya Tilly e o Dr. Culber. Culber e Stamets formam um casal, sendo o primeiro casal homossexual da franquia Star Trek na Televisão. Discovery preza muito pela diversidade em seus personagens, indo muito além de um casal homossexual, ao colocar o protagonismo de mulheres e negros em foco. Além disso ela também reencontra Saru, seu antigo comandado da Shenzhou, que agora é o segundo em comando da Discovery. Logo depois temos a adição de Ash Tyler, que aparece como um par romântico para Burnham.

Mudança de paradigma

Durante a temporada todos os personagens se desenvolvem de maneira sublime. Em seus 15 episódios, Discovery consegue mostrar em detalhes as motivações de cada personagem, para então modific

A imagem mostra a atriz Michelle Yeoh (Phillipa Georgiou). Ela veste uma armadura dourada e faz sinal de cessar fogo. Atrás dela também estão dois homens de armaduras douras. Ao fundo algo está em chamas.
Michelle Yeoh interpreta a capitã Phillipa Georgiou no início da série e depois retorna para viver a Imperatriz Phillipa Georgiou, pesonagens completamente diferentes.

á-las a partir de fatos marcantes na trama.

O 9 primeiros episódios da temporada são focados nesse desenvolvimento. Mas, logo temos uma virada. Em meio à guerra contra os Klingons, a Discovery é enviada para outra dimensão e o debate político, sempre presente em Star Trek, ganha o foco.

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Nessa outra dimensão, o planeta Terra dominou o espaço, subjugando todas as outras formas de vida. Vulcanos e Klingons estão unidos contra o império Terráqueo, mas oferecem poucas perspectivas de mudar aquela realidade. O império Terráqueo mostra todos os traços de governos fascistas, sendo referenciado na figura de um grande e impiedoso líder: A imperatriz Phillipa Georgiou. Além do perfil fascista, esse governo também mostra uma ampla conotação racial. Todas as raças, que não os humanos, são considerados inferiores.

São muitos os elementos marcantes, tanto politicamente, quanto psicologicamente. A discovery se vê em meio à um universo que não é seu, lutando contra tudo aquilo que a Federação Unida de Planetas significa. Enquanto isso, outros personagens enfrentam dilemas éticos e morais severos ao precisarem fingir fazerem parte do Império Terráqueo enquanto buscam uma maneira de retornarem ao seu próprio universo.

Questões psicológicas e relacionamentos abusivos em outro Universo

Burnham é quem mais sofre por isso. Primeiramente precisa enfrentar um relacionamento abusivo com Ash Tyler. Aquele que parecia ser a pessoa em que ela mais confiava, mostra ser resultado de uma experiência Klingon, em que uma mente Klingon foi colocada em um corpo humano. Ela quase é morta por Ash e se vê completamente quebrada. Já ele é preso e tem a mente Klingon apagada de seu corpo, retornando à sua personalidade original. A série consegue tratar esse assunto de maneira sublime. Mesmo que Ash tenha se recuperado, as marcas do passado não podem ser apagadas e um retorno entre ele e Michael é impossível. A cena do episódio final em que isso é declarado é linda e cheia de sensibilidade.

A imagem mostra Ash Tyler (Shazad Latif) enforcando Michael Burnham (Sonequa Martin-Green).
O relacionamento entre Michael Burnham (Sonequa Martin-Green) e Ash Tyler (Shazad Latif) emula relacionamentos abusivos.

Após isso, Michael passa novamente por uma situação de relacionamento abusivo, mas dessa vez um tanto diferente. Após os fatos do início da série, a única pessoa que demonstra acreditar em seu potencial e impulsiona o seu retorno é o capitão Gabriel Lorca. Qual é a surpresa da garota ao perceber que Lorca ao tempo todo estava manipulando a garota. Na verdade, o Lorca verdadeiro havia morrido e um outro Lorca, o do universo paralelo em que a Discovery está, assumiu o seu lugar. O desejo de Lorca era efetuar um golpe de estado contra a Imperatriz Geourgiou e assumir o seu lugar. Ele acreditava que ela era fraca e que seria um imperador muito melhor. Para isso não poupou esforços e manipulações.

Em meio à tudo isso, Michael consegue enxergar esperança. Primeiro ao ver que Klingons e Vulcanos, naquele universo, superaram suas diferenças e estão combatendo juntos. Isso a enche de esperanças sobre o futuro de seu universo. Além disso, ao reencontrar a sua maior referência e a quem ela traiu no início da série, Burnham se ilude e vê naquilo uma forma de compensar o que fez.

Em um movimento complexo, Lorca é morto pela Imperatriz e a Discovery está prestes a voltar para o seu universo original (salvando o universo no processo). Mas a Imperatriz Geourgiou acabou demonstrando fraqueza perante os planos de Lorca, algo inadmissível para o império Terráqueo. Quando está prestes a ser morta, Burnham a salva e a transporta para a Discovery, assim, a imperatriz acaba indo para na realidade em que o Império Terráqueo não existe e a Federação, assim como os humanos, são o símbolo de justiça e esperança.

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Essa parte da temporada é responsável por um salto de amadurecimento das personagens. Michael se vê quebrada pela segunda vez em pouco tempo e precisa se reconstruir. Saru é colocado na pressão de ser o novo capitão da Discovery e precisa tomar decisões complicadas para garantir a sobrevivência de sua tripulação. Ash Tyler precisa descobrir novamente quem ele é, após todo o processo com os Klingons. Stamets precisa enfrentar o luto causado pela morte de seu amado e levar todos de volta e em segurança para o seu universo. Tilly precisa superar sua timidez e demonstrar força para fingir ser quem não é. Todos os personagens se desenvolvem e amadurecem no processo. Amadurecimento que será extremamente necessário no desenrolar final da temporada.

Na parte política, a diferença histórica que de um lado gerou a Federação Unida de Planetas de um lado e o Império Terráqueo de outro não é apresentada, mas ficam alguns indicativos. Em ambas as realidades o planeta Terra passava por momentos caóticos e crises ambientais e econômicas severas. No universo regular, o encontro com os vulcanos e a possibilidade de explorar o espaço gerou a unificação do nosso planeta em torno de uma economia solidária (alguns diriam que comunista) e de uma política social igualitária, aceitando as diferenças internas e externas. Isso levou ao avanço da nossa civilização. Já no universo alternativo, essa unidade se deu por base da força e da imagem de um líder supremo. Tal líder utilizou a guerra para nos unificar, defendendo uma ideologia social de supremacia terráquea sobre as outras espécies do universo. Isso e outros elementos, gerou um governo fascista.

O universo alternativo demonstra um risco presente em nossa própria realidade atual. Cada vez mais vemos líderes personalistas aparecendo sob um estandarte de união de certas parcelas sociais, as colocando como superiores à todas as outras. Essa superioridade é significada para defender atrocidades. Pode ser simbolizada por uma etnia, por uma religião, por uma ideia nacionalista, etc. Porém creio que o exemplo que mais se aproxima da realidade brasileira é a superioridade daqueles que se consideram “Pessoas de bem”. Pessoas que estão moralmente e economicamente acima de outros, que enxergam o mundo apenas a partir de sua própria realidade. Essas pessoas, mesmo sem perceber, podem se tornar impulsionadores de um sistema fascista. Impulsionadores de alguém que defende metralhar toda uma comunidade, cometer um genocídio, como a solução para a segurança pública. Além de terrível, isso é simplista e ineficaz.

A arte tenta nos ensinar que nem tudo (ou quase nada) pode ser resolvido de maneira simplista. O simplismo, na maior parte das vezes, cobra um preço alto: destrói nossa humanidade. O final de temporada de Star Trek mostra isso de uma maneira sublime, mas vou deixar esse final para depois, pois essa análise já ficou imensa.


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Rafael TAB

Rafael tem 26 anos e mora no interior de São Paulo. Diagnosticado com transtorno bipolar é fissurado por cultura pop e nerd desde os 9 anos de idade quando foi apresentado ao sítio do Pica Pau Amarelo e logo depois ao fantástico mundo de Harry Potter. Hoje é um grande fã de O Senhor dos Anéis e Star Trek. Tem fascinação por áudio-visual, tecnologia e games.

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