Star Trek Discovery e os perigos das soluções simplistas que podem gerar sistemas fascista – Parte 2
Pictured: Michelle Yeoh as Captain Philippa Georgiou. STAR TREK: DISCOVERY coming to Netflix. Photo Cr: Jan Thijs. © 2017 CBS Interactive. All Rights Reserved.

Star Trek Discovery e os perigos das soluções simplistas que podem gerar sistemas fascista – Parte 2

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Esse é a segunda parte da análise da primeira temporada de Star Trek: Discovery. Leia antes a primeira parte dessa análise.

A visita a uma realidade alternativa mexeria com a cabeça de qualquer pessoa. E realmente, ao final dessa viagem em Star Trek, vemos que isso ocorreu. Todos os personagens foram mexidos de diversas maneiras. Eles amadureceram de uma maneira fria e cruel enquanto estiveram em outro universo. Um universo em que a humanidade, a qual eles tanto prezam, era responsável por um governo tirânico, um governo fascista. Em que a humanidade, famosa em Star Trek por se relacionar com todas as diferentes culturas do universo, não aceitava nenhuma diferença.

Mas essa viagem teria que ter um fim. E isso aconteceu graças a cada um dos componentes da Discovery. Saru assumiu o comando, agora que o “capitão” Gabriel Lorca estava morto. Foi bastante duro para o personagem descobrir a verdade sobre o seu superior e isso ficou visível em sua reação. Porém o personagem não tinha tempo para se lamentar. Toda a tripulação dependia de sua liderança. Ele teve que processar todos os acontecimento em uma velocidade desumana para se colocar em seu novo papel. E isso foi feito de maneira primorosa.

Michael enfrentou seus fantasmas do passado. A dor de ter traído a pessoa que foi sua referência durante seus anos de treinamento. Logo depois a traição daquele que surgiu como seu novo mentor. A personagem teve que crescer para enfrentar os desafios e ser essencial no retorno da Discovery para seu universo original. Em um momento de fraqueza ela acaba cedendo. Mesmo sabendo que não era o certo, ela salva a versão ditadora de sua antiga capitã momentos antes de uma morte eminente e a leva para a Discovery. A leva para o universo em que a humanidade é um símbolo de igualdade social e econômica. Um símbolo de aceitação e compreensão (ou tentativa dela) de todas as culturas.

Stamets foi outro que conseguiu superar dores profundas para assumir o seu papel de guia na viagem para casa. Ele perdeu seu grande amor, assassinado por um aliado (mesmo que esse aliado estivesse sobre controle Klingon). Certamente as coisas seriam muito diferentes, caso não houvesse a chance de despedida na rede micelial. E que linda despedida. Um adeus recheado de compreensão sobre a vida, a morte, o amor e toda a realidade.

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Mas o retorno não seria tão fácil…

O Retorno para a Guerra

O erro de Stamets é bem fácil de ser aceito. Afinal precisou encontrar o caminho para casa em um emaranhado de milhões de caminhos possíveis entre todas as realidades. No final eles acabam retornando para casa com 9 meses de atraso. O tempo de uma gestação humana é o tempo para a realidade de guerra estar completamente modificada. Confesso que deu um medinho enquanto eles chamavam no rádio e ninguém da Federação respondia. Estaria a Federação já erradicada?

A imagem mostra a ponte de comando da Discovery. Há vários membros da tripulação. Michael Burnham conversa com um holograma da almirante Cornwell.Felizmente isso não aconteceu e a Discovery é abordada pela nave de Sarek (papai de Spock e de Michael) e pela almirante Cornwell, antigo romance de Gabriel Lorca. Ambos já mostram que as coisas estão diferentes na Federação quando, sem permissão, Sarek invade a mente de Saru para saber o que ocorreu com a nave, já que a Discovery do universo do universo terráqueo havia ido parar naquele universo e causado alguns problemas. Foi um bom modo de cortar a explanação sobre a história dos episódios anteriores.

Logo eles foram informados da mudança na Guerra. Os Klingons estavam sem liderança e avançaram de maneira completamente ilógica pelo território da federação. E realmente. Combater um inimigo unificado é muito mais simples do que combater vários inimigos que não se comunicam. A análise de dados para a defesa se torna muito mais complexa e falha. Com isso os Klingons estavam prontos para, a qualquer momento, invadir o nosso planeta natal.

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Mas os superiores que abordaram a Discovery também descobrem outro fato. A imperatriz Geourgiou estava na nave. E ela havia sido responsável pela destruição do império Klingon em seu universo.

A sua interação com a Federação demonstra o quanto o fantasma do fascismo é sedutor. No início há uma certa distância entre a imperatriz e o alto comando da federação. Era uma porta fechada, que acaba sendo aberta por Michael que, em desespero, pede para que ela revele como conteve o império Klingon em seu universo. A resposta era, de certa maneira lógica. Por mais que possamos viajar, não há lugar como a nossa própria casa. O que os Klingons mais prezavam era seu planeta natal. Atacar esse planeta era a chave para tentar reverter a guerra. Porém a casa dos Klingons era completamente desconhecida. A primeira Enterprise havia feito um mapeamento do local há mais de cem anos e seria impossível mapear os pontos estratégicos para o ataque sem ter sua nave destruída.

Em mais um ponto de desafio, Stamets é colocado no papel de levar a nave por meio da rede micelial até cavernas no interior do planeta para que o mapeamento fosse feito por dentro. Com isso, um ataque seria possível.

Um Flerte com o Fascismo

Porém um ataque não era o bastante. O alto comando da Federação sabia que fariam os Klingons retrocederem por um momento, mas depois a guerra seria retomada e eles ainda estavam em desvantagem. Nas sombras um flerte com o fascismo se tornou ainda maior. Michael foi a responsável por abrir a porta, mas foram Sarek e Cornwell que a escancararam. Eles colocam a imperatriz Geourgiou no comando da Discovery. Na tripulação, apenas Michael e Saru sabiam de sua presença. Para o resto da tripulação foi inventado que a capitã Geourgiou estava viva e assumiria o comando da nave estelar durante aquela missão.

Michael assumiu que eles estavam fazendo uma jogada arriscada para o sucesso da missão de mapeamento. Ela nem imaginava que o plano do alto comando era outro.

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Se, no inicio da série, Michael cometeu o pecado de trair sua capitã e tentar um motim, o pecado do alto comando era ainda maior. Desesperados eles assumiram uma postura que significa a traição dos mais básicos valores assumidos pela Federação Unida de Planetas. O plano era utilizar a imperatriz para destruir o planeta natal Klingon. Afinal, situações desesperadoras pedem medidas desesperadoras.

No fundo eles sabiam que tal ação faria com que a porta para o fascismo fosse explodida. Ela ficaria aberta a partir dali enquanto a Federação existisse. Seria o fim da federação como o universo a conhecia e o início de algo muito pior. O problema das medidas desesperadoras é que elas ficam no passado e, como tudo que está lá, servem de lição para o futuro. Destruir a bases de uma civilização inimiga, abriria a possibilidade de destruição de qualquer outro inimigo que se colocasse contra a Federação. Abriria a possibilidade de um governo pela força, de um poder fascista que se alastraria pelo Universo. No fundo eles sabiam disso, tanto que não informaram a tripulação da nave o real objetivo da sua missão.

Conhecendo seu inimigo

A história humana é recheada de guerras. Povos se digladiam desde o início da história. Às vezes por território ou alimento, outras pela simples vontade de dominar ainda mais gente. Ou então pelo dinheiro, pela exploração de uma riqueza de outra nação ou pela crença de superioridade étnica e/ou racial. Muitas vezes também guerreamos pelo sentimento de ameaça ao nosso estilo de vida. Quando sentimos que outro povo poderia nos dominar e acabar com toda nossa herança cultural.

A imagem mostra uma assembleia. Há vários Klingons sentados em meses douradas. Eles usam vestes também douradas.Essa desconfiança é até natural. A destruição de culturas é algo comum. O imperialismo fez isso por eras e, hoje, continua fazendo pela figura, principalmente, dos Estados Unidos. É o mesmo motivo que levou, inicialmente, os Klingons à guerra. Eles sentiam o temor de que a Federação se tornasse uma organização expansionista e acabasse com sua cultura e modo de viver. No início da série esse temor se mostrou real. Todo o começo da Guerra se deu devido à uma estação da Federação que ficava em um local do universo em que repousava o mais importante monumento dos Klingons. Isso significa que, realmente, a Federação estava avançando para áreas que historicamente estavam sob o controle deles. Isso levantou temor e os levou à declarar guerra.

A Federação nunca teve essa intenção (diferente dos impérios expansionistas atuais). Porém o império Klingon era algo completamente diferente. Uma cultura milenar muito forte, a qual era de difícil compreensão e, com isso, com a qual era impossível iniciar um diálogo.

Em meio à tudo isso, ir ao planeta natal do inimigo foi importantíssimo para Michael. À distância é complicadíssimo compreender outras culturas, ainda mais uma cultura inimiga. Porém, ao observar como os habitantes do planeta levavam suas vidas, se divertiam e faziam seus corres, ela observou a similaridade em meio à todas as diferenças. Ela os observou como igual. Sua aventura no universo alternativo em que Klingons e Vulcanos conviviam por ter um inimigo em comum teve uma importância tremenda no amadurecimento da personagem para ela poder observar isso. Seus inimigos viviam. Alguns eram felizes, outros rabugentos, outros tristes… Assim como todos os seus aliados.

É por isso que, ao descobrir os planos do alto comando para destruir aquele planeta, ela fica furiosa e é responsável por um dos discursos mais belos em Star Trek. Ela revela para a tripulação aquilo que o alto comando escondeu de todos e enfrenta esse comando utilizando os seus próprios erros como exemplo.

Dois desafios apareceram: o plano já estava em curso e, mesmo agora conhecendo seu inimigo, o império Klingon era uma ameaça.

A Resolução

Um problema bastante presente atualmente são as soluções simplistas. No geral elas são completamente ineficazes, mas quando são eficazes à curto prazo é que são terríveis. Sim, seria mais fácil metralhar toda uma comunidade pobre e acabar com os “bandidos” dali. Vários inocentes morreriam, mas o problema seria completamente resolvido. As mazelas sociais continuariam a existir, novos “bandidos” nasceriam com o tempo. Qual seria a próxima solução? Esterilizar todas as pessoas pobres do nosso país? Porém, que tipo de sociedade nós seriamos se fizéssemos algo assim? Quais as consequências sociais que uma ação tão simplista como essa acarretaria? Vários governos fascistas fazem parte da nossa história e podem nos ensinar as respostas para tais perguntas.

Essas soluções simplistas saltam aos olhos e, por vezes, podem nos cegar para todas as consequências causadas por elas. Não foi diferente para a Federação. Ela enfrentava um inimigo que ameaçava a destruir (lembrando que tudo por causa de uma falha de comunicação). A solução mais simples à curto prazo seria destruir esse inimigo. Mas em que eles se transformariam após isso?

Para evitar esse futuro seria necessária uma proposta audaciosa e complexa. No caso da série foi ainda mais complexa por ter exigido confiança em alguém que era visto como inimigo.

Desde o início da série, tudo o que o império Klingon queria era se reunificar. Aqueles que iniciaram a guerra contra a Federação viam no conflito uma possibilidade de unificar as 24 casas que dividiam o império. Isso ruiu após a morte do líder dessa proposta de reunificação. Mesmo vencendo a Guerra, os Klingons estavam perdendo os seus objetivos. Michael viu nisso uma possibilidade. Acima de tudo, ela viu uma necessidade. A necessidade de ajudar o seu inimigo a garantir o seu objetivo.

Ela usa uma prisioneira da Discovery: a Klingon L’rell. Ela fazia parte do grupo que queria a unificação. Quando descobre que o grande objetivo estava sendo completamente perdido, que, mesmo vendendo a guerra, a unificação não seria alcançada, ela aceita entrar em ação.

O plano da Federação era o de colocar uma bomba no centro do planeta natal Klingon para causar a explosão do planeta. Michael e Saru compreenderam o império Klingon, uma cultura que colocava a força acima de tudo. Mesmo que eles não concordassem com aquela postura, o modo de resolver o problema era aceitá-la. A força (não é a mesma de Star Wars) era o que moviam os Klingons. Nesse cenário nada poderia demonstrar mais força do que uma proponente a líder com o poder de destruir o planeta natal inteiro com um dedo. Com isso, a bomba é jogada no núcleo do planeta, mas o controle para ativar sua destruição é dada para L’rell que, com isso, se propõe a unificar o império sem a necessidade de uma guerra contra a Federação.

Nós e a própria Federação podemos discordar completamente de uma liderança movida pela força e medo. E não podemos mesmo concordar com isso. Mas também não podemos utilizar essa mesma força e medo para modificar toda uma cultura que se baseia nisso. Entendam, seria diferente se, no caso, fosse apenas um líder que utilizasse o poder para subjugar outros seres. Nisso eu concordaria de primeira com a necessidade de retirar esse líder do poder. Mas, no caso de uma cultura, isso não adianta em nada a longo prazo. Podemos destruir toda essa cultura e nos transformarmos em tiranos (algo que ocorreu várias vezes em nossa história) ou sermos exemplos para que essa cultura seja modificada. E não modificada por nós, mas pelas próprias pessoas que constroem toda essa cultura. É a elas que deve ser dado o poder de reconstrução e não à um agente exterior com poderes fascistas, imperialistas e ditatoriais.

Se a cultura Klingon mudará ou não (quem assistiu as séries antigas sabe a resposta para isso) deve depender e dependerá dos próprios Klingons.

A nós, basta tentar compreender essa cultura. Não podemos deixar as portas do fascismo escancaradas, pois ele é bastante envolvente.

Conclusão e o Futuro

Se no começo da temporada havia dúvidas, agora elas não existem mais. Discovery realmente é uma série Star Trek. Ela consegue se relacionar completamente com a atual realidade em que vivemos e traz questionamentos necessários para todos. É algo que Star Trek sempre fez e os fãs podem se orgulhar disso.

O final da série nos deixa apenas com as expectativas lá em cima. O encontro com a Enterprise apenas colocou a velinha no delicioso bolo que foi essa temporada. Nesse momento estou apenas desesperado para que 2019 chegue logo e as consequências desse encontro sejam colocadas. Certamente teremos o capitão Pyke, mas será que teremos Spock?

A imagem mostra as naves Discovery e Enterprise frente-a-frente.Na cronologia da franquia cinematográfica ele ainda não está na Discovery no tempo em que se passa aquela cena (9 anos antes da série original), mas, caso sigam a cronologia da série clássica, teremos um encontro entre Spock, Sarek e Michael que promete abalar corações.

Que a força esteja com vocês! Ops… Vida longa e próspera!

Observação: Concluindo o que foi colocado na parte 1. A conclusão da relação entre Michael e Ash Tyler é bastante emocionante e satisfatória. Ela compreender que a pessoa que tentou matá-la era diferente daquele Ash, mas, ainda assim, o passado era poderoso demais para ser reescrito. O rompimento era extremamente necessário e fez muito sentido. Apenas espero que não tentem retornar à esse romance nas próximas temporadas, pois isso destruiria essa conclusão.


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Rafael TAB

Rafael tem 26 anos e mora no interior de São Paulo. Diagnosticado com transtorno bipolar é fissurado por cultura pop e nerd desde os 9 anos de idade quando foi apresentado ao sítio do Pica Pau Amarelo e logo depois ao fantástico mundo de Harry Potter. Hoje é um grande fã de O Senhor dos Anéis e Star Trek. Tem fascinação por áudio-visual, tecnologia e games.

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