Star Trek Discovery – Contexto é para Reis (Episódio 03)
USS Discovery foi finalmente apresentada em tela

Star Trek Discovery – Contexto é para Reis (Episódio 03)

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Quando se vive em uma civilização que acabou ou está em busca de acabar com todas as diferenciações sociais e econômicas, algum elemento ganhará relevância e, no universo de Star Trek, sempre foi a honra o motivador de toda a ação humana envolvida nas histórias da Franquia. Nos primeiros dois episódios acompanhamos Michael fazendo julgamentos corretos, porém foram suas escolhas precipitadas que a marcaram. Quando organizou o motim e atacou sua Capitã, mesmo que visando o melhor para a tripulação, ela sabia que estava jogando fora o bem mais precioso para ela mesma e para a grande parte da sociedade em que vive. Sem honra, Michael encontra-se perdida no início deste terceiro episódio, que finalmente traz Star Trek de volta para o universo das séries da forma com a qual Star Trek sempre se mostrou.

Nesse episódio temos Star Trek voltando para as suas origens. Após os dois primeiros episódio que se concentraram na ação, os debates filosóficos utilizando a ciência como um pilar essencial retornaram e, junto com Michael, somos finalmente apresentados à USS Discovery, uma nave científica que, dando nome a produção, traz novamente para a franquia os alicerces que a marcaram em suas predecessoras.

É bastante marcante em toda a história da franquia o papel honrado com o quais seus personagens, principalmente os protagonistas, foram apresentados. Desde o audacioso Capitão Kirk e sua relação com o reflexivo primeiro oficial Spock ou com a inversão causada pelo reflexivo capitão Picard e o audacioso primeiro oficial Riker, a honra foi um dos pilares essenciais para acompanharmos Jornada nas Estrelas e, em Discovery, isso não será diferente, porém ganha elementos para o aprofundamento do debate sobre essa questão.

Finalmente, junto com a nave, fomos apresentados à tripulação a qual acompanharemos nessas novas aventuras, em que, finalmente, não teremos um protagonismo instalado na ponte de comando, mas que caminhará e nos apresentará a outros pontos das naves da Federação Unida de Planetas.

Saru é o novo Primeiro Oficial. Ele é um personagem que trilha uma tênue linha entre a manutenção da honra e seus instintos primitivos baseado no medo, por fazer parte de uma espécie que se desenvolveu sendo caçada. Ele insiste em ser chamado de primeiro oficial não apenas por prezar pela sólida base hierárquica que uma nave deve ter, que é reforçada pelo momento de Guerra, mas por precisar se reafirmar como merecedor do posto, por precisar ganhar a coragem necessária para ter o segundo cargo de comando da Discovery. Sua relação com Michael deverá ser o ponto forte nessa jornada pelas estrelas. Ao mesmo tempo em que ele admira a força e inteligência de sua antiga oficial superiora, ele a teme pelos mesmos motivos.

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Capitão Lorca estará à frente da Discovery

Lorca é o novo capitão da nave. Fomos apresentados à um personagem que tem o pensamento de Guerra. Consigo até mesmo imaginá-lo lendo as obras de Sun Tzu antes de dormir. Acredito que ele ainda não foi devidamente apresentado, já que em seus momentos em tela pareceu atuar para fazer com que seus objetivos, ainda misteriosos, fossem alcançados. Somos apresentados à personalidade do personagem por meio da fala de outros e isso sempre é um risco quando falamos sobre a construção da identidade humana. Cada um de nós idealiza os outros baseados em nossas histórias e preconceitos, portanto criamos sempre uma imagem irreal do que é o outro. Isso ficou claro nas falas de Saru e de Stamets ao apresentarem quem seria o capitão para Michael, pois cada um o vê de um jeito. Gabriel Lorca é, entre os apresentados nesse episódio, o mais misterioso da tripulação e deveremos ver mais dele no futuro.

Stamets é o principal responsável pelas pesquisas científicas, o foco e finalidade da existência da Discovery. Pelo jeito, ele sempre viu na ciência um meio de fazer com que a sociedade pudesse expandir seus horizontes e prosperar. Ver suas pesquisas sendo utilizadas para a guerra contra os Klingons é algo que o atinge profundamente. Lembra muito a relação de gênios humanos que observaram os seus estudos sendo utilizados para levar a morte aos outros, como Openheimer e a bomba atômica ou Santos Dummont e o avião. Seus conflitos com o Capitão Lorca deverão ser outros pontos importantes para a série e não duvido que virão dele a maior parte dos conflitos filosóficos da série.

Já Michael encontra-se perdida no início desse episódio. Como disse antes, ela perdeu o seu maior bem nos episódios anteriores e buscou na punição uma forma de aliviar sua consciência. É notável a sua designação para aceitar a prisão perpétua ao qual foi condenada (e ao qual nós sabíamos que duraria apenas um episódio), tendo a percepção de que isso não era nada perto da confiança perdida que seus iguais depositavam nela. Porém a personagem ainda é movida por uma curiosidade sem limites e, nesse episódio, a vimos novamente quebrando as regras, mas dessa vez para descobrir no que estava metida, diferentemente do senso de proteção à todos que a fez se amotinar. Michael enfrentará a desconfiança e a admiração dos personagens da série, mas não acho que isso durará muito.

O destino da personagem principal ainda é uma duvida para mim. Nesse episódio tivemos a certeza sobre a sua criação em Vulcano e sua relação com Spock e Amanda. Em uma franquia que sempre busca criar um fio condutor sólido em sua linha do tempo, Michael não ser citada pelo seu personagem de maior relevância cultural é uma linha solta que precisará ser aparada. Desde o início foi anunciado que Discovery seguiria a linha do tempo imposta às séries de televisão, ignorando a realidade paralela gerada para os últimos filmes lançados no cinema, então a possibilidade de morte, ou até apagamento da existência, são futuros possíveis para a personagem.

Qual será o futuro de Michael?
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O conceito de apagamento da existência já foi apresentado em outras obras de ficção científica. Ele se dá quando um personagem tem a sua existência apagada da realidade, que tem suas linhas do tempo alteradas para que, ao ser apagado, o desparecimento de alguém não altere drasticamente os eventos com os quais esse alguém esteve envolvido. Doctor Who já apresentou histórias com esse conceito e ele é considerado pior do que a morte. Imagine todos os que você ama esquecendo que você existiu, todas as suas relações sendo apagadas dos fios da história. Seria um final para trágico para a série, mas forçaria uma linha histórica consistente na franquia e seriamos apresentados a mais uma nova realidade entre tantas possíveis.

Fora isso, somos apresentados a outro elemento que poderia mexer drasticamente na estrutura da franquia. Stratmer apresenta seus estudos, baseado em física e biologia (que em nível quântico são a mesma coisa, segundo ele), em que utilizaria micróbios para criar um novo meio de se locomover no espaço de maneira instantânea.

Anos-Luz é uma medida de espaço que leva em consideração o tempo de viagem entre dois pontos à velocidade da luz, a maior velocidade possível segundo a mais sólida pesquisa científica atual pensada por Albert Einstein. Utilizando essa medida, podemos considerar que um ano luz significa que, na velocidade da luz, levaríamos um ano para viajar entre dois pontos. A pesquisa de Latmer apresenta a possibilidade de viajarmos 97 anos-luz em uma fração de segundos, sendo a maior velocidade já apresentada em Star Trek que, por meio da hipótese de viagem em dobra, já ultrapassou a velocidade da luz há muito tempo. Porém, mesmo em Nova Geração, o ponto mais ao futuro da franquia, a velocidade apresentada pela pesquisa do oficial científico da Discovery jamais foi alcançada. Isso nos leva a crer que, assim como Michael, esse será um elemento que deverá ser retirado até o final da nova série. Não me assustaria se o estudo de Latmer e a irmã de criação de Spock tivessem um fim relacionado.

Toda essa teorização feita até aqui apenas reforça que, após dois episódios com foco em ação, Star Trek voltou pra sua raiz e trará muitas outras teorias, hipóteses científicas e embates filosóficos. Isso me deixa muito feliz.

Vida longa e próspera pra vocês.

Observação: Até os efeitos especiais desse episódio, que ficaram bem abaixo dos efeitos do episódio de estreia, animaram o meu nostalgismo.

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Rafael TAB

Rafael tem 26 anos e mora no interior de São Paulo. Diagnosticado com transtorno bipolar é fissurado por cultura pop e nerd desde os 9 anos de idade quando foi apresentado ao sítio do Pica Pau Amarelo e logo depois ao fantástico mundo de Harry Potter. Hoje é um grande fã de O Senhor dos Anéis e Star Trek. Tem fascinação por áudio-visual, tecnologia e games.

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