Sobre o ataque fascista de autointitulados Anonymous e o meu passado “sombrio”.

Sobre o ataque fascista de autointitulados Anonymous e o meu passado “sombrio”.

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Nesse final de semana eu estava em casa, colocando algumas leituras em dia, quando fui avisado por um amigo sobre um ataque que estava ocorrendo sobre um grupo de facebook. O grupo tinha sido organizado por mulheres que tentam resistir aos avanços do fascismo incorporado pela candidatura de Jair Bolsonaro. Durante o final de semana ele tinha alcançado a marca de dois milhões de “Mulheres Contra Bolsonaro”. Neste o momento o Facebook retirou o grupo do ar para avaliar o que fazer.

Logo pesquisei o ataque e vi que os tais “hackers” estavam já há alguns dias atacando as moderadoras desse grupo. Eles conseguiram o contato delas e logo começaram a ameaçá-las, dizendo que exporiam os seus dados, conseguidos por meio de suas “técnicas hackers”. Quem está ligado no mundo sombria que permeia a internet, sabe que conseguir essas informações a partir do nome ou apelido de uma pessoa não é a coisa mais difícil do mundo. Muitos serviços por aí vendem os nossos dados por valores irrisórios, inclusive alguns deles, mais alardeados, já foram processados pelo ministério público.

Durante o sábado eles avançaram e conseguiram, não pesquisei como, tomar o controle do perfil de algumas das administradoras e controlarem o grupo, modificando a imagem de capa e o nome do grupo para dizer que ele apoiava o tal candidato. A canalhice chegou ao extremo, quando um dos filhos do militar compartilhou aquele grupo, com a modificações, como se fosse mesmo um grupo de apoio a seu pai.

Não sei qual era o nível de segurança que a conta delas tinha, mas não podemos culpá-las uma vez mais por serem vitimas de fascistas que utilizam seus conhecimentos para propagar seu ódio. Porém hoje o Facebook oferece ferramentas para dar uma proteção maior a sua conta, tornando quase impossível a invasão, e é importante conhecê-las. Irei tratar disso em outra publicação.

Dando uma breve pesquisada, descobri que os invasores se identificaram como Anonymous, o que me trouxe recordações do meu passado sombrio (pero no mucho).

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O símbolo do Anonymous com o mapa da Onu estilizado e uma pessoa de terno. Ele não tem cabeça e em seu lugar há um ponto de interrogação.

Meu passado Anônimo

O ano era 2009. Eu já programava alguns sistemas há cerca de 4 anos, quando me aproximei de um sujeito português em um fórum sobre segurança de websites. Estava tentando aprender técnicas de segurança para colocar no meu blog sobre política que já tinha sofrido alguns ataques. (Quem quiser procurar, ele ainda está no ar, hospedado pelo blogspot, que na época era um software livre, permitindo modificações em seus códigos, algo que hoje em dia já não é mais possível).

Eu já tinha uma inclinação a esquerda e comecei a conversar, me tornando amigo dele. Uma das coisas que lembro dessa amizade é que jamais compartilhamos nossos nomes e só fui descobrir a identidade desse amigo quando seu nome saiu nos jornais anos mais tarde. Ele foi preso, como lider da LulzSec, um grupo hacker bastante atuante entre 2011 e 2014. Grupo do qual fiz parte por um tempo. Até hoje acredito que ele não saiba minha identidade.

Em 2010 a nomemclatura Anonymous, surgida em 2003, já havia ganhado força. Era um nome comum, sobre o qual alguns hackerativistas se colocavam para propagar ataques e manifestações políticas. Mas foi apenas em 2011 que o nome explodiu junto com a Wikileaks de Julian Assange.

Até 2012 atuei com os amigos europeus da LulzSec. Foi quando sai de cena, em partes para iniciar uma militância no Brasil, em outras partes pelo descontentamento com os rumos que o grupo tinha tomado em nossas terras. A LulzSec propagou diversas ações sobre a nomemclatura Anonymous, enquanto espalhava conhecimentos sobre defesa utilizando seu próprio nome na Europa. Alguns acreditam que a organização durou apenas 50 dias, mas não tenho dúvidas de que ela continua a existir, porém mais silenciosa, frente aos ataques legais que sofreu.

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A LulzSec, em seu tempo de estrelado, propagou diversas ações contra o sistema financeiro, órgãos de repressão de governos imperialistas, empresas lobbystas e, com grande evidência, resistindo aos ataques sofridos pela Wikileaks vindos do imperialismo e de seu sistema financeiro e jurídico.

Mesmo antes da LulzSec sair de cena, um “braço” brasileiro foi fundado. E, com isso, comecei meu afastamento.

Um cartaz com o rosto de Guy Fakes, outro símbolo Anonymous, rasgado.

O que aconteceu com o Anonymous?

Externamente o Anonymous começou a ser enxergado erroneamente como um grupo organizado, algo que nunca ocorreu. Era apenas um nome que diversos grupos compartilhavam. Porém a visão orgânica passada para fora causou uma guerra de egos e ataques de todos os lados em busca de uma hegemonia.

A direita e o fascismo tentavam com força se apoderar do nome em nosso país, fazendo ataques ao governo brasileiro para reclamar de impostos, atacando o Banco do Brasil, enquanto mantinham um constrangedor silêncio frente ao Itaú, entre outras coisas.

Isso ainda era 2012. Na época tentei por um tempo, com alguns conhecidos, unificar um bloco nacional progressista para utilizar o nome, mas foi em vão. Eramos muito poucos.

Antes do fim do ano eu acabei parando de agir como hackerativista. O Anonymous, por coincidência, foi perdendo holofotes, principalmente por conta das manifestações de rua que ocorreram nos anos seguintes.

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Percebi por um tempo a inocência que tive naquele tempo. Realmente acreditei que um grupo de pessoas sem uma organização central poderiam mudar alguma coisa na internet. Houveram batalhas gloriosas, mantendo a Wikileaks no ar ou espalhando um pouco a cultura de segurança entre outros usuários, mas nada concreto. Não chegamos nem perto da raiz dos problemas reais.

A falta de uma organização central que desse um norte político e organizasse a proteção de grupos como o LulzSec fez com que vários ativistas precisassem sair de holofote e que muitos acabassem.

Já o nome Anonymous provou que apenas uma nomenclatura, sem direção, não tem o poder de unificar as pessoas em uma luta que precisa ser comum. Faz com que esse nome seja desvirtuado.

Fiquei afastado da área de Tecnologia da Informação até 2016. Durante esse período aprendi muita coisa atuando em outras áreas, como Redução de Danos com pessoas em situação de rua, e militando em algumas organizações, como o Levante Popular da Juventude.

Anonymous foi um nome que surgiu para trazer contestação, mas se perdeu nos erros apontados acima. O ataque dos autointitulados Anonymous para propagar o fascismo e o ódio demonstra isso.

Eu ainda continuo com meu sonho de que um grupo de hackers militantes possa surgir, com um projeto político que o unifique, que os coloque para disseminar técnicas de defesa e de manifestações. Precisamos nos armar com conhecimento para atuar online e resistir aos ataques que sofremos. Porém isso me parece algo ainda difícil por conta da cultura individualista que infesta o ambiente da Tecnologia da Informação.

Mas é necessário sonhar para construir um mundo novo. (Sonhar e se organizar).

Toda a força às Mulheres Unidas contra Bolsonaro.

PS: Espero que ninguém queira me prender por esse texto. Além de não atuar diretamente nas ações (minha função era trabalho de base e elaboração de tutoriais de defesa), não existem provas de nenhum texto. Mas sabemos que atualmente pra prender alguém no Brasil, as provas são detalhes. Então ficarei na minha própria torcida. =)


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Rafael TAB

Rafael tem 26 anos e mora no interior de São Paulo. Diagnosticado com transtorno bipolar é fissurado por cultura pop e nerd desde os 9 anos de idade quando foi apresentado ao sítio do Pica Pau Amarelo e logo depois ao fantástico mundo de Harry Potter. Hoje é um grande fã de O Senhor dos Anéis e Star Trek. Tem fascinação por áudio-visual, tecnologia e games.

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