Os preconceitos, cuidados e esperanças no mundo de Harry Potter
"A história se repete. A primeira vez como tragédia, a segunda vez como farsa"

Os preconceitos, cuidados e esperanças no mundo de Harry Potter

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Eu era apenas uma pequena criança, quando me encantei com o mundo de Harry Potter. Comecei lendo errado, iniciando a leitura de O Prisioneiro de Azkaban antes das anteriores, mas logo aprendi o que era uma cronologia de livros e os li na ordem certa. Aquele mundo me encantou de tal maneira que lembro de ter diversos sonhos em que vivia nele. Era uma bela fuga para as tretas na escola e em casa pelas quais passei quando era criança. Mas foi apenas quando cresci um pouco e retomei a série por meio dos filmes e releituras dos livros que comecei realmente a compreender os paralelos daquele mundo com o mundo real.

Quando o sétimo livro foi lançado, eu já estava entrando na fase adulta e pude ter uma compreensão maior das revelações sobre o passado de Alvo Dumbledore junto com Grindelwald. Pude compreender as nuances que fizeram com que o bruxo mais respeitado da história tivesse tomado rumos tão tortuosos na adolescência e amei o debate que se abriu com o universo Harry Potter, argumentações necessárias que puderam chegar à crianças e adolescentes do mundo todo.

Não vou me alongar em explicar a história, pois sei que a maioria de vocês já devem conhecê-la. Dumbledore, que mais tarde viria a se tornar diretor da escola de magia e feitiçaria de Hogwarts, na adolescência apresentou pensamentos fascistas em relação aos não bruxos. Acreditava na superioridade dos bruxos e que, portanto, os trouxas deveriam se submeter às vontades deles. Junto com Grindelwald desenvolveu várias teses defendendo isso, mas após a morte trágica de sua irmã mais nova, acabou se afastando daquele que se tornaria o seu maior oponente. Dumbledore supriu, ao mesmo tempo, uma paixão platônica pelo bruxo das trevas e isso o impediu de agir durante muitos anos, porém quando a situação tornou-se incontrolável ele entrou em ação e duelou com Grindelwald, vencendo a batalha e colocando o bruxo em sua própria prisão, onde viria a morrer anos mais tarde nas mãos de Lord Voldemort.

Gerardo Grindelwald era um óbvio paralelo com Hitler que, no mundo humano, foi vencido após ofensivas dos EUA, França e Inglaterra e culminando com a invasão feita pela União Soviética que pôs fim a segunda Guerra mundial. Dumbledore representou essa ofensiva da união soviética.

O paralelo com o mundo real são muitos. Gerardo representava o fascismo humano e o pensamento de superioridade de uma raça sob a outra, Dumbledore era aquele que demorou a agir por ter flertado com tais ideias de supremacia, assim como os EUA. Os trouxas representam todas as parcelas sociais perseguidas naquele período: Judeus, negros, ciganos, homossexuais, etc, que eram taxados como inferiores e poderiam ou colocar sua existência para a servidão aos superiores ou encontrar a morte.

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O bruxo das trevas representa um modelo de pensamento que está colocado há muito tempo em vários humanos durante a nossa história. Representa a mesma sensação de superioridade de um indivíduo sobre o outro que gera as bases para a xenofobia, o racismo, o machismo, a lgbtfobia.

Também é possível traçar um paralelo econômico quando percebemos que ao lado de Grindelwald e, depois, ao lado de Voldemort estavam as famílias mais tradicionais e ricas do mundo bruxo, que, na realidade, jamais poderiam provar a “pureza” de seu sangue bruxo, já que árvores genealógicas sempre são inexatas, porém tinham o poder econômico para comprar tal “pureza” almejada. São bem parecidos com os alemães arianos que se aproximaram das ideias de Hitler sob o manto de serem o homo-sapiens puro, mas que, com os avanços da pesquisa genética, descobrimos que carregam uma carga de DNA Neandhertal, ou seja, são frutos de uma mistura, assim como aqueles chamados de “sangues ruins” na saga da escritora J.K. Rowling, que seriam aqueles frutos de miscigenação entre bruxos e não bruxos ou então portadores de poderes mágicos que nasceram em famílias sem magia.

Bem. Grindelwald finalmente foi derrotado em 1945, porém suas ideias fluíram pelo ar. Alguns anos depois, quando todos achavam que aquele período já havia passado e que todos agora poderiam viver em paz, Tom Marvolo Riddle, conhecido como Lord Voldemort, surge como um receptáculo das ideias de Grindelwald. Porém lembremos que “a história se repete. A primeira vez como tragédia e a segunda vez como farsa”. Riddle não era exatamente como Grindelwald. Longe de ter as suas certezas sobre a superioridade bruxa, já que ele mesmo havia nascido de uma miscigenação, o segundo lorde das trevas utilizou as ideias de Grindelwald para atrair seguidores, porém seus objetivos eram muito mais egocêntricos do que os do vilão anterior: Atingir a imortalidade.

E isso também tem seu paralelo no mundo real, assim como as mesmas consequências. Em momentos de crises, vemos figuras emergindo com objetivos próprios e angariando seguidores com ideias tortas que podem levar muitos ao sofrimento. Aqui no Brasil temos até um presidente em exercício para provar esse ponto.

É apenas uma piadinha (ou não)
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Em momentos difíceis, as ideias mais horríveis do mundo costumam surgir. No nosso desespero por dias melhores, acabamos por nos agarrar à ideias simplistas e, por vezes, terríveis. Não temos tantos dados de Grindelwald, mas era possível ver, entre os seguidores de Voldemort, perfis que se enquadram nisso. Criaturas oprimidas que almejam se tornarem opressoras, como os gigantes e alguns bruxos pobres e negligenciados com os quais nos deparamos nas aventuras de Harry Potter. Pessoas egocêntricas costumam utilizar tais parcelas da população para levar a cabo seus objetivos igualmente egocêntricos e isso tende a piorar com a utilização de bancos de dados e consultorias que visam criar a imagem perfeita de alguma figura pública. Isso sempre ocorreu, mas com o avanço das tecnologias vem se tornando ainda mais perigoso, como mostra a eleição de Trump nos Estados Unidos.

É preciso cuidado. Principalmente para não desacreditarmos aqueles que lutam contra isso e são trucidados pela máquina da mídia, assim como aconteceu com Harry em A Ordem da Fênix. Quando percebermos nossos erros, podemos já ter entrado em momentos complicados.

Também é preciso não cair no erro de acreditar que certos horrores jamais voltaram ou que já aprendemos com isso. Assim como Voldemor ressurgiu, mesmo que como farsas, tais horrores sempre podem voltar a acontecer. A crescente presença de pensamentos neo-nazista é uma prova disso. Mesmo o negacionismo de certos fatos atuais também é um exemplo disso, como quando queremos tanto negar o nosso próprio racismo que ignoramos os milhares de negros que morrem pelo nosso país, ou queremos tanto negar o nosso machismo e a nossa lgbtfobia que ignoramos as mulheres, homossexuais, bissexuais, transsexuais e diversas outras parcelas da população que sofrem diariamente com a violência, abandono, etc.

Mas o desespero também não é o nosso aliado. Harry Potter também nos ensinou a importância de não estar sozinho para enfrentar nossos inimigos. Como em a ordem da Fênix, é preciso que nós, aqueles que acreditam em mudança, nos juntemos para brigar por uma realidade melhor.

Afinal, Harry Potter nos ensino muito sobre os cuidados que devemos tomar, porém também nos ensina muito sobre a importância da esperança e dos nossos laços para transformar a realidade.


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Rafael TAB

Rafael tem 26 anos e mora no interior de São Paulo. Diagnosticado com transtorno bipolar é fissurado por cultura pop e nerd desde os 9 anos de idade quando foi apresentado ao sítio do Pica Pau Amarelo e logo depois ao fantástico mundo de Harry Potter. Hoje é um grande fã de O Senhor dos Anéis e Star Trek. Tem fascinação por áudio-visual, tecnologia e games.

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