Opinião POP: O que é ser criança?
Os problemas vão muito além de monstros de outras dimensões.

Opinião POP: O que é ser criança?

Nesse dia das crianças gostaria de relembrar àqueles saudosistas do passado, os que acabam se cegando pra realidade, que ser criança não é a coisa mais fácil do mundo. E está longe disso.

Muito além dos monstros criados pela nossa imaginação ou pela cultura pop, há muitos problemas a serem enfrentados pelas crianças.

Talvez alguns de vocês tenha tido uma vida abastada, cheia de dinheiro e pais carinhosos e amorosos, mas isso é distante da realidade da ampla maioria das crianças que vivem em nosso planeta. Em alguns locais a fome acaba superando qualquer outro problema enfrentado. Segundo relatório da ONU, 16 mil crianças MORREM de fome todos os dias em um mundo onde, longe de ter falta de suplementos para todos, a distribuição de renda e bens é completamente desigual e acaba afetando algumas regiões. Em nosso país, apenas em 2014, depois de anos de políticas públicas, o Brasil saiu do mapa da fome da ONU, porém retornamos à ele em 2017. E isso atinge a infância de forma assustadora. Não é uma situação que será resolvida com ações paliativas de caridade, mas apenas com o fortalecimento de políticas públicas de redistribuição de bens (como a Terra e a necessária reforma agrária) e renda.

Além desse problema, vários outros são enfrentados pelas crianças e, longe de querer relativizar os problemas do mundo, o abandono parental, o bullying que é baseado nas opressões vividas, a falta de segurança, abusos sexuais e tantos outros problemas atingem à fundo aqueles que serão o futuro da nossa espécie no planeta, causando sofrimentos e traumas que são difíceis de serem superados.

Neste ano fomos presenteados no cinema com o filme de terror IT: A coisa, que muito mais do que o terror com um palhaço metamorfo assassino, tratou sobre temas relativos à juventude que devem ser debatidos sempre e à fundo. O filme se passa na realidade do início dos anos 90, mas são problemas ainda enfrentados hoje em dia.

O racismo, por exemplo, atinge toda uma parcela da nossa população, porém já pararam para imaginar o que ele causa em crianças negras ao redor do mundo. Vários estudos já abordaram esse tema e gosto sempre de relembrar o vídeo abaixo e, ao assistí-lo, é impossível não imaginar o sofrimento pelo qual essas crianças passam em um mundo onde elas apenas caíram e ainda não compreendem. Além disso, crianças negras tem uma probabilidade muito maior de perderem seus país por conta da violência do que crianças brancas, em um problema que atinge a realidade em geral.

O machismo é outro desses tantos problemas e também é abordado no filme do palhaço do mal. A pedofilia, que jamais deve ser relativizada do jeito que alguns falaram ultimamente, atinge uma ampla gama de crianças e é amplamente suportada por uma cultura de estupro que permeia a nossa sociedade e atinge, com muito mais força, as mulheres e meninas do nosso mundo. É outro dos problemas que precisam ser enfrentados de maneira feroz, compreendendo o quão inaceitável é a sexualização infantil.

Meninos também são vítimas de pedofilia, sendo um problema baseado em outro ponto: a LGBTFobia moldada pelo pensamento conservador presente em nossa sociedade. É uma questão que atinge tanto meninos, quanto meninas. Quantas meninas já não foram vítimas de “estupros corretivos” por apresentarem orientação sexual diferente do que a sociedade dita que deveria ser pelo seu sexo biológico? Meninos também passam por algo parecido, porém em menor número e disfarçado de “suporte paterno” quando são levados em casas de profissionais do sexo para perderem a sua virgindade e se provarem como homens.

Além de tudo isso, ainda temos a principal fonte de sofrimento para nossas crianças. Algo que se relaciona intrinsecamente com a questão da fome citada no início do texto. A opressão econômica vitima grande parcela da nossa juventude que, em um período reconhecido como a época de sonhar, acabam tendo os seus sonhos estilhaçados por questões econômicas e, muitas vezes, tendo o seu amadurecimento acelerado para cuidar de uma casa.

Todas essas questões juntas, são a base do bullying ou, como eu chamo, treinamento para que crianças virem adultos e aprendam a aceitar um mundo inaceitável. O Bullying nada mais é do que o treinamento para que homens percebam sua “superioridade” sobre as mulheres, para que pessoas LGBT percebam que são inaceitáveis em um mundo inaceitável, para que brancos aprendam a manter o seu papel de dominação sobre negros e para que ricos aprendam a desprezar pobres e a manter as rodas do sistema girando.

São questões essenciais a serem relembradas e enfrentadas nesse dia das crianças. Data que, na verdade, deveria ser no dia 20 de novembro, assim como é no resto do mundo, por remeter ao Aniversário da Declaração Universal dos Direitos das Crianças, mas que no Brasil ficou definida ainda na década de 30 como o dia 12 de outubro e depois redefinida como mais uma data de impulsionamento do comércio nos anos 60, quando a fabricante de brinquedos Estrela e a Johnson&Johnson promoveram promoções de artigos para crianças nesse dia.

Mesmo não sendo na data estipulada pela ONU e tendo acabado por virar uma data extremamente comercial, não devemos esquecer o real fundamento de existir um dia das Crianças: lutar pelo direito de brincar, de imaginar e de sonhar com futuros onde cada uma delas poderá ser um Superman, um Goku, uma Mulher Maravilha, uma Tempestade, um Pantera Negra, uma Samus, uma Rey, um Finn ou qualquer outro tipo de herói que elas queiram ser, até mesmo os mais singelos, como os humanos normais, e que possam construir um futuro ainda melhor para as próximas gerações.

E que nunca deixemos esse lado sonhador, que erroneamente é colocado como exclusivamente das crianças, nos abandonar.

Feliz dia das crianças

Declaração Universal dos Direitos das Crianças

A 20 de Novembro de 1959, em reunião desta Assembléia e aprovada, passa a vigorar a seguinte declaração:

Toda criança tem Direitos

Princípio I – À igualdade, sem distinção de raça, religião ou nacionalidade.

A criança desfrutará de todos os direitos enunciados nesta Declaração. Estes direitos serão outorgados a todas as crianças, sem qualquer excepção, distinção ou discriminação por motivos de raça, cor, sexo, idioma, religião, opiniões políticas ou de outra natureza, nacionalidade ou origem social, posição econômica, nascimento ou outra condição, seja inerente à própria criança ou à sua família.

Princípio II – Direito a especial proteção para o seu desenvolvimento físico, mental e social.

A criança gozará de protecão especial e disporá de oportunidade e serviços a serem estabelecidos em lei e por outros meios, de modo que possa desenvolver-se física, mental, moral, espiritual e socialmente de forma saudável e normal, assim como em condições de liberdade e dignidade. Ao promulgar leis com este fim, a consideração fundamental a que se atenderá será o interesse superior da criança.

Princípio III – Direito a um nome e a uma nacionalidade.

A criança tem direito, desde o seu nascimento, a um nome e a uma nacionalidade.

Princípio IV – Direito à alimentação, moradia e assistência médica adequadas para a criança e a mãe.

A criança deve gozar dos benefícios da previdência social. Terá direito a crescer e desenvolver-se em boa saúde; para essa finalidade deverão ser proporcionados, tanto a ela, quanto à sua mãe, cuidados especiais, incluindo-se a alimentação pré e pós-natal. A criança terá direito a desfrutar de alimentação, moradia, lazer e serviços médicos adequados.

Princípio V – Direito à educação e a cuidados especiais para a criança física ou mentalmente deficiente.

A criança física ou mentalmente deficiente ou aquela que sofre de algum impedimento social deve receber o tratamento, a educação e os cuidados especiais que requeira o seu caso particular.

Princípio VI – Direito ao amor e à compreensão por parte dos pais e da sociedade.

A criança necessita de amor e compreensão, para o desenvolvimento pleno e harmonioso de sua personalidade; sempre que possível, deverá crescer com o amparo e sob a responsabilidade de seus pais, mas, em qualquer caso, em um ambiente de afeto e segurança moral e material; salvo circunstâncias excepcionais, não se deverá separar a criança de tenra idade de sua mãe. A sociedade e as autoridades públicas terão a obrigação de cuidar especialmente do menor abandonado ou daqueles que careçam de meios adequados de subsistência. Convém que se concedam subsídios governamentais, ou de outra espécie, para a manutenção dos filhos de famílias numerosas.

Princípio VII – Direito à educação gratuita e ao lazer infantil.

O interesse superior da criança deverá ser o interesse diretor daqueles que têm a responsabilidade por sua educação e orientação; tal responsabilidade incumbe, em primeira instância, a seus pais.

A criança deve desfrutar plenamente de jogos e brincadeiras os quais deverão estar dirigidos para educação; a sociedade e as autoridades públicas se esforçarão para promover o exercício deste direito.

A criança tem direito a receber educação escolar, a qual será gratuita e obrigatória, ao menos nas etapas elementares. Dar-se-á à criança uma educação que favoreça sua cultura geral e lhe permita – em condições de igualdade de oportunidades – desenvolver suas aptidões e sua individualidade, seu senso de responsabilidade social e moral. Chegando a ser um membro útil à sociedade.

Princípio VIII – Direito a ser socorrido em primeiro lugar, em caso de catástrofes.

A criança deve – em todas as circunstâncias – figurar entre os primeiros a receber proteção e auxílio.

Princípio IX – Direito a ser protegido contra o abandono e a exploração no trabalho.

A criança deve ser protegida contra toda forma de abandono, crueldade e exploração. Não será objeto de nenhum tipo de tráfico.

Não se deverá permitir que a criança trabalhe antes de uma idade mínima adequada; em caso algum será permitido que a criança dedique-se, ou a ela se imponha, qualquer ocupação ou emprego que possa prejudicar sua saúde ou sua educação, ou impedir seu desenvolvimento físico, mental ou moral.

Princípio X – Direito a crescer dentro de um espírito de solidariedade, compreensão, amizade e justiça entre os povos.

A criança deve ser protegida contra as práticas que possam fomentar a discriminação racial, religiosa, ou de qualquer outra índole. Deve ser educada dentro de um espírito de compreensão, tolerância, amizade entre os povos, paz e fraternidade universais e com plena consciência de que deve consagrar suas energias e aptidões ao serviço de seus semelhantes.

Rafael TAB

Rafael tem 26 anos e mora no interior de São Paulo. Diagnosticado com transtorno bipolar é fissurado por cultura pop e nerd desde os 9 anos de idade quando foi apresentado ao sítio do Pica Pau Amarelo e logo depois ao fantástico mundo de Harry Potter. Hoje é um grande fã de O Senhor dos Anéis e Star Trek. Tem fascinação por áudio-visual, tecnologia e games.
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