Onde Está Segunda traz drama, ação e suspense, mas falha com debate simplista
Sete irmãs devem mentir ao mundo e fingir serem apenas uma pessoa

Onde Está Segunda traz drama, ação e suspense, mas falha com debate simplista

Após aparecer algumas vezes na minha tela inicial do Netflix, decidi assistir à comédia Onde Está Segunda. Porém o filme NÃO é uma comédia, apesar de sua premissa se parecer muito com um filme ruim do Adam Sandler (Pleonasmo?).

A história se baseia em um planeta Terra futurista em que a superpopulação se tornou o nosso maior problema. Para enfrentá-lo uma política chamada Nicolete Cayman (Glenn Close) lança uma proposta de lei que se torna realidade nos Estados Unidos. A partir dessa lei, as famílias estão autorizadas a terem apenas um filho. Logicamente, leis de controle populacional são de difícil controle. Sempre há o risco de famílias esconderem crianças, por exemplo. Para contar isso, uma super agência é criada e passa a submeter a população ao seu controle. As crianças excedentes, irmãs e irmãos, são capturados e enviados para a criogenia, onde poderão dormir até que a Terra se torne um local melhor para se viver.

Porém a introdução do filme nos apresenta outro problema, já bem conhecido no mundo real. A manipulação genética de alimentos inicialmente foi vendida como a solução para a superpopulação de humanos que tinham fome. Já é conhecido os riscos de tal manipulação, com estudos que ligam a utilização de transgênicos, como são conhecidos, à tumores e outras doenças. Na premissa do filme, um efeito mais simples é evidenciado. Um surto de gravidez de gêmeos e múltiplos atinge a humanidade e o nascimento de mais de um bebê torna-se comum. Em todos esses nascimentos, apenas um poderá sobreviver.

É então que entra na história Terrence Settman (Willem Dafoe). Ele acaba de ver a sua filha morrer durante o parte de 7 meninas gêmeas. Sabendo da dura realidade em que se encontrava, o avô decide proteger e treinar as netas. A sua ideia é que o mundo exterior as conhecesse apenas como uma única pessoa. Elas ficariam trancadas em casa e cada uma delas assumiria o papel dessa pessoa em um dia da semana. As sete gêmeas recebem então os nomes dos 7 dias da semana.

O filme não se preocupa em explicar e não é necessário, mas em certo momento o avô delas desaparece da trama. Agora as gêmeas já são mulheres adultas e seguem suas rotinas de sair um dia por semana fingindo para o mundo serem alguém que não são, enquanto que, apenas em casa, cada uma delas podem abraçar suas reais identidades, sonhos e personalidades.

Com as sete personagens em cena, Rapace mostra talentosismo brilhante.

Esse é o ponto em que o filme tem o seu maior acerto. Baseando-se na interpretação de Naomi Rapace, que interpreta as sete personagens, somos apresentados a sete pessoas completamente diferentes. Sete universos. Cada uma dessas mulheres tem suas próprias personalidades, seus talentos, seus sonhos e seus medos. Rapace está completamente incrível no papel e é impossível não comparar a sua atuação com a de James McAvoy em fragmentado. Porém o desafio da atriz é ainda maior. Enquanto McAvoy interpretava várias personalidades distintas presas ao mesmo corpo, Rapace interpreta sete personalidades distintas que interagem entre si. E as interações delas são deslumbrantes.

Mas a história tem seu real início com um desaparecimento. No seu dia de sair de casa, Monday (Segunda), acaba desaparecendo e as outras seis irmãs entram em uma jornada desesperada para encontrá-la. Ao mesmo tempo em que se preocupam com a irmã desaparecida, elas enfrentam o medo de que, caso esteja morta, Segunda será encontrada pela polícia em algum momento. Isso faria com que a identidade a qual todas elas interpretam se torne inútil, acarretando no fim da única vida com a qual elas tiveram contato.

O filme se centra na ação e no drama, que ocupam tempos similares de tela. Ele não se furta em mostrar cenas pesadas que beiram o gore, quando não são exatamente isso. E é importante para compreender o peso que há na responsabilidade de sete pessoas fingirem ser a mesma, esse gore é colocado em cena de maneira chocante. Quando uma delas foge de casa e perde o dedo, o avô então percebe que aquilo poderia entregá-las à agência governamental que levava as crianças. Portanto ele decide que todas também devem perder os dedos e, utilizando uma faca de cozinha aquecida, ele decepa o dedo das outras seis meninas.

Até então a obra estava distante de mim, mas esse horror que é colocado em cena me transportou para dentro dela. Tornou algo que parecia muito distante do meu mundo em um terreno de imersão absoluta. Eu estava entregue.

O debate do filme

A obra é uma ficção científica e, como toda a ficção científica, extrapola a realidade para fazer uma crítica aos nossos tempos. E isso é o papel mais importante de toda obra futurista. Porém a premissa de Onde Está Segunda é muito frágil e é perceptível uma falta de profundidade na crítica do filme. A ideia de uma terra superpopulosa é debatida há anos e já estamos longe do medo que inundou os anos 90. A ideia de um planeta que não consegue produzir alimentos para toda a população é ainda mais frágil. Vários estudos da ONU apontam que o problema da fome no planeta não está ligado à produção de alimentos. Na verdade nós distribuímos mal os alimentos produzidos. Muitos ficam nos países mais ricos e poucos nos mais pobres.

Willem Dafoe continua sua parceria de filmes com a Netflix.

O filme original do Netflix teve a chance de discutir essas questões, porém a ignorou. Isso o enfraquece como uma obra crítica. Seu debate político e filosófico é desperdiçado (assim como 40% dos alimentos que produzimos, segundo estimativas da FAO – Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação.), quando percebemos as oportunidades de debates que ele ignora.

O próprio debate sobre os alimentos poderia ter sido colocado em diversos momentos, mas é completamente ignorado.

A única boa ideia colocada em debate é a abordagem à personagem de Glenn Close. Nicolete Cayman se apresenta como uma salvadora da humanidade. Ela admite cometer atrocidades, como retirar crianças do convívio com suas família, mas acredita ser por uma boa causa. Em certo momento até demonstra culpa pelo que faz. Mas, no fundo, é perceptível que as aparentes “boas intenções” apenas escondem sua sede de poder. Ela quer se tornar Primeira-Ministra a qualquer custo e, para isso, não se interessa com quem atravessa o seu caminho, nem com as famílias separadas. Ela discursa sobre estar protegendo aqueles que sofrem no planeta, mas todos os cenários em que aparece são limpos e belos. Muito diferentes da pobreza que assola o mundo em outras cenas do filme.

Em tempos onde políticos assim parecem brotar, o filme até faz um bom casamento com a realidade brasileira. Afinal, vivemos em um país onde certos prefeitos de cidades como São Paulo (João Dória), decidem demonstrar preocupação com os pobres em busca de votos presidenciais e nem conhece a realidade em que as pessoas vivem. E, com isso, lançam ideias idiotas. Para combater a fome, decide destruir a dignidade da pessoa humana e oferecer rações aos pobres. Novamente, parece partir da falsa premissa, de que há falta de alimentos. NÃO HÁ FALTA DE ALIMENTO! Por que não distribuir o arroz, feijão, carnes e saladas excedentes? Por que não alimentar a população de forma digna? Enfim… Políticos com a mesma postura e visão de mundo que Nicolete Cayman, são bem comuns.

Suspense, Ação e Drama do filme é empolgante.

Conclusão

Onde Está Segunda é um ótimo filme de ação, drama e suspense. Realmente ele nos far emergir na história contada e, quando menos percebemos, estamos preocupados com o destino das sete irmãs interpretadas por Naomi Rapace. E que interpretação! A atriz realmente é exuberante e, apenas por causa dela, valeria ver o filme.

Fora o brilhantismo de Rapace, o filme também nos entrega uma trama de drama e suspense muito bons. É delicioso saborear os mistérios que vão se apresentando em tela.

Porém o filme peca por apresentar um debate extremamente raso, perdendo oportunidades de fazer críticas realmente relevantes à nossa realidade. Isso o faz perder alguns pontos.

Onde Está Segunda é uma produção original da Netflix. Você pode encontrar o filme no catálogo do serviço de streaming.

Rafael TAB

Rafael tem 26 anos e mora no interior de São Paulo. Diagnosticado com transtorno bipolar é fissurado por cultura pop e nerd desde os 9 anos de idade quando foi apresentado ao sítio do Pica Pau Amarelo e logo depois ao fantástico mundo de Harry Potter. Hoje é um grande fã de O Senhor dos Anéis e Star Trek. Tem fascinação por áudio-visual, tecnologia e games.
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