O Justiceiro começa bem, mas encontra um final colossal e vazio
Jon Bernthal é Frank Castle, o Justiceiro

O Justiceiro começa bem, mas encontra um final colossal e vazio

Quando a série O Justiceiro foi anunciada e começou a ser produzida, muito se falou sobre a problemática de levar um herói como ele às telas atualmente. Os EUA passam por um período sombrio, com a crescente onda fascista e nazista, além do fortalecimento da cultura armamentista. Apenas nesse ano, tivemos diversos casos de atentados terroristas internos no país, como o ataque em Las Vegas, que culminou na morte 58 pessoas e deixou mais de 500 feridas. Ele é realmente um personagem difícil de se levar às telas, mas a abordagem que seria dada, definiria como ele seria visto em torno de toda a onda de violência que assola o mundo.

No dia 24 de novembro, finalmente Justiceiro teve todos os seus episódios lançados no canal de Streaming. Antes do lançamento da série, alguns atores, como Jon Bernthal e Ben Barnes foram a público, apontar que a violência da série foi criada para causar desconforto e fazer com que as pessoas questionassem a atual política de armas dos Estados Unidos.

O personagem O Justiceiro é apresentado nos quadrinhos da Marvel em 1974. Ele é um personagem bastante complexo, apresentando um senso de justiça bastante individualista, descrença do poder estatal, nacionalismo exacerbado e vários problemas psicológicos que o levam a ser um dos personagens mais violentos da Marvel. A ideia de utilizar um personagem quebrado para gerar debates necessários sobre a atual conjuntura social não é algo novo. No próprio Brasil isso ocorreu com o Capitão Nascimento em Tropa de elite, um policial fascista e com sérios problemas psicológicos. Ambos tem em comum o fato de serem protagonistas de suas obras sem que sejam encarados como heróis, mas também tem em comum o fato de que a visão dada para ambos, que deveria explorar uma crítica pesada, não funcionou.

Assim como ocorreu com Capitão Nascimento, neste momento temos um dos personagens mais problemáticos do Universo Marvel sendo alçado à herói nacional por uma parcela do público que encara as ações do anti-herói como algo necessário e “bonito de se ver”. O velho discurso de “Bandido bom é bandido morto” está sendo vociferado pelos fãs da série da Netflix e da Marvel, sem perceberem que o próprio Justiceiro também deve ser encarado como um criminoso. Ele até foi apresentado assim na segunda temporada de Demolidor, sendo preso e processado pelo Estado de Nova York por conta de seus crimes cometidos, mas em sua série própria, parece que se esqueceram dessa faceta.

O debate político prometido para a série até se sustenta em sua primeira metade. De cara já somos apresentados a um Frank Castle, o nome real do Justiceiro, que está tentando manter sua instabilidade emocional sobre controle. Uma das relações mais interessantes do personagem nesse início é a que ocorre entre sua realidade e o seus sonhos: O Frank Castle mais controlado tem sonhos doces sobre sua falecida esposa, enquanto que, conforme ele vai perdendo o controle e retornando a sua violência, os sonhos se tornam cada vez mais sombrios e violentos também. Claramente podemos ver sua mente se quebrando ao longo do primeiro episódio, algo que continua ocorrendo até o episódio 7 e é completamente destruído no penúltimo episódio da série, quando seus sonhos começam a demonstrar uma espécie de prazer relacionado com a dor que está sentindo quando está sendo torturado.

Madani e Stein representam o lado da lei na primeira metade da temporada

Analisando Frank Castle, é possível perceber como e o quanto o personagem tem sua mente quebrada. Começando pela ótima abordagem que a série dá para a guerra e as consequências psicológicas dela em seus combatentes. Frank já apresentava um perfil quase que quebrado quando ainda estava junto com sua família, mas esse perfil é apresentado com mais ênfase no personagem Lewis Walcott, um ex-combatente que está completamente desestabilizado. Em busca de alguma estabilidade, mesmo que falsa, em sua vida, ele acaba caindo no discurso conservador e armamentista de outro personagem (que é apresentado como um aproveitador de fragilidades de outros jovens). Lewis acaba se tornando um terrorista, que busca frear as políticas de controle de armas e tem como seu herói o próprio Justiceiro, a quem vê como um igual. De certa maneira, é até poético o quanto Lewis representa uma parcela do público da série.

Mas, continuando com Frank Castle, ele acaba se tornando ainda mais quebrado com a morte de sua família e com a eventual descoberta de que esse assassinato se deveu a uma traição de alguém bem próximo. Todos essas fatos, fazem com que o protagonista da série encontre-se completamente quebrado e deveria nos mostrar as consequência para um ser humano que foi levado ao limite pelo sistema. Por todos os sistemas. Frank foi levado e quebrado pelo exército por base em seu nacionalismo e teve sua família morta graças ao capitalismo, exemplificado pela ganância de alguém próximo à ele.

Mas isso não tornou Castle um defensor da política do “Bandido bom, é bandido morto” completamente. Como vemos na série, o personagem é levado apenas pelo seu desejo de vingança e instinto de sobrevivência. Logo no primeiro episódio, ele até apresenta uma compreensão sobre a realidade social que leva ao crime. O Justiceiro assassina alguns assaltantes para proteger um outro assaltante que havia feito uma cagada colossal. O personagem apresentado é bem próximo de Castle e acaba sendo o primeiro traço de uma quase nova amizade que aparece na tela. Além da possibilidade de atestar que Frank tenha uma compreensão sociológica do crime, também a possibilidade de que ele esteja preso na hipocrisia de “Bandido Bom é bandido morto”, a menos que seja alguém próximo do meu convívio. É a mesma hipocrisia a qual muitas outras pessoas estão presas.

A série tem essa boa pegada no início. Debate temas relevantes como controle de armas, assistência psicológica para veteranos de Guerra, Noções de Justiça e outras mais. Porém a série se esquece de tudo isso ao final de sua primeira metade. A partir daí temos apenas mais uma série violenta e descerebrada que vai levando o personagem pelo seu caminho de matança.

Em sua segunda metade de temporada, o Justiceiro apresenta uma crescente cinematográfica, mas perde muito em discurso e acaba sendo apenas mais uma série de violência exagerada. Violência que está presente desde a primeira cena do primeiro episódio, mas que perde o seu debate político filosófico e sofre por uma crescente exagerada entre o meio e o final dessa primeira temporada. Não é por menos que vários personagens que traziam questionamentos somem nessa segunda metade, dando espaço apenas para Justiceiro, Micro (um hacker que descobriu um esquema do exército e teve que se afastar da sua família. Outro personagem quebrada), Madani (uma exemplar oficial da Segurança Nacional que também apresentava um bom confronto filosófico sobre justiça, mas que DO NADA passa a apoiar o Justiceiro de maneira até cega) e seus vilões que, com exceção de um, acabam sendo completamente superficiais.

Não há de se negar que a produção de Justiceiro teve um bom empenho em trazer debates para a obra, mas ao ignorar tais debates em seu final colossal, que são os episódios em que as pessoas mais se apegam, acabam falhando miseravelmente. Não que não tenha nenhum debate nesses momentos finais, mas eles aparecem de forma completamente indireta e a série acaba por cometer o mesmo erro que o filme Tropa de Elite. Ao apresentar um debate indireto, você acaba dando espaço para que o público tire suas próprias conclusões que diferirão daquela que a produção gostaria de passar com a obra. Isso se torna ainda mais problemático quando envolve violência exagerada. Tropa de Elite, por exemplo, só conseguiu lidar com isso em sua sequência quando, desesperado pelo apoio massivo ao seu protagonista anti-herói e psicologicamente instável, José Padilha fez uma obra com um discurso mais claro e direto.

Por fim, a conclusão é que Justiceiro até tentou criar um enredo que gerasse um debate sobre a atual realidade, porém derrapou e acabou gerando uma obra que já vem se tornando referência para os defensores de justiça com as próprias mãos, forte violência como métodos de punição e outras pensamentos amparados no senso comum. Até mesmo o ótimo debate feito sobre a situação emocional de veteranos de guerra se torna apagada quando se chega ao final dessa primeira temporada.

O Justiceiro tem todos os seus episódios disponíveis na Netflix.

Rafael TAB

Rafael tem 26 anos e mora no interior de São Paulo. Diagnosticado com transtorno bipolar é fissurado por cultura pop e nerd desde os 9 anos de idade quando foi apresentado ao sítio do Pica Pau Amarelo e logo depois ao fantástico mundo de Harry Potter. Hoje é um grande fã de O Senhor dos Anéis e Star Trek. Tem fascinação por áudio-visual, tecnologia e games.
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