O dinheiro e a cultura nerd: Precisamos quebrar essa barreira
Financeiramente, a maior parte da população está mais quebrada do que o Peter Parker.

O dinheiro e a cultura nerd: Precisamos quebrar essa barreira

Compartilhe!

Publicidade

Olá, caro leitor. To aqui hoje inaugurando a coluna Opinião Nerd do site Aperta o TAB e vim falar sobre um tema que dá dor de cabeça para a grande maioria de nós: Dinheiro!

Eu lembro que quando eu era um “bacurizinho”, tinha lá pelos meus 10 anos de idade, eu era assíduo frequentador da biblioteca da escola. E quando digo assíduo, entenda isso por letras maiúsculas: ASSÍDUO! Eu já era um nerd, antes de me entender por nerd. Ia na biblioteca quase todos os dias para pegar livros e lia uma média de uma obra por dia. A bibliotecária chegava a duvidar que eu realmente lia todos aqueles livros, porém, por fim, ela acreditou e lembro que chegou o tempo em que na sexta-feira, já que eu não podia pegar livros no final de semana, ela deixava eu levar 3 livros para casa. Fazia a minha felicidade. Logicamente, e infelizmente, isso trouxe problemas, afinal o nerd da escola sempre é o mais zuado e perseguido. Mas depois de muitas sessões de terapias, eu finalmente consegui superar os traumas da infância.

Mas não é disso que eu vim falar aqui, então vamos lá. A primeira coleção completa que eu li foi O Sítio do Pica-Pau amarelo, do autor brasileiro Monteiro Lobato, e depois disso me interessei por essa coisa de continuidade em livros, indo atrás de outras obras que seguiam esse estilo. Foi nessa época que eu descobri a existência do livro que marcou a minha vida e rendeu até mesmo uma tatuagem no meu braço direito: O Senhor dos Anéis. Era 2001 e os filmes iriam chegar ao cinema, enquanto eu ficava doido pra ler todas aquelas centenas e centenas de páginas. Fui na biblioteca e o livro não estava disponível lá. A bibliotecária me contou que a escola não tinha esses livros pois eles eram muito caros.

Na primeira oportunidade de ir à uma livraria, ignorando o comentário da tia da biblioteca, eu fui logo procurando o tal do livro do Tolkien. Cheguei todo feliz, porém minha felicidade acabou-se quando cheguei na prateleira e vi o preço dos livros. Havia um que era a coleção completa: D-U-Z-E-N-T-O-S FUCKING REAIS! Também existiam as versões separadas dos livros, o que deveria ser um certo alívio, mas não foi. A Sociedade do Anel, As duas Torres e o Retorno do Rei custavam, cada um deles, O-I-T-E-N-T-A FUCKING REAIS. Naquele dia eu era uma criança triste.

Eu nunca tinha pensado sobre a realidade econômica da minha família. Era filho de uma auxiliar de enfermagens que trabalhava noite e dia pra sustentar três filhos e meu pai era um sujeito um pouco distante que, com o tempo, se tornou ainda mais distante. Dinheiro para livros era um luxo que não tínhamos na época.

Publicidade

Eu fazia parte ali na infância dos 99% das pessoas que não tem os meios para produzir o seu próprio dinheiro e, portanto, precisam trabalhar. Comparando com os dias atuais, eu tava bem longe de fazer parte dos 6 ricaços do Brasil que, juntos, tem a mesma riqueza que cerca de 100 milhões de brasileiros. Enfim, eu era um Nerd pobre.

Analisando hoje, foi uma puta duma sorte eu ter me tornado um Nerd, pois eu estava e estou longe de ter as condições materiais concretas para consumir esse tipo de cultura. Eu sou viciado em HQs e Mangás, olha o preço dos Mangás. Eu adoro assistir a um filme de Ficção Científica e animação, porém só fui ao cinema pela primeira vez aos 8 anos de idade, quando assisti ao filme Tarzan da Disney, pois o ingresso era caro demais e minha mãe não podia estar presente para me levar, porque estava trabalhando. Foi minha irmã que me levou quando finalmente teve idade para sair sozinha.

Mas não vim aqui pra ficar apenas contando minhas tristezas da vida nerd. To aqui pra falar a verdade. Consumir cultura (e, logicamente, consumir cultura nerd) é caro demais!

A questão financeira é uma barreira muito grande e impossibilita milhões de brasileiros que gostariam de consumir cultura, gostariam de ser Nerds, gostariam de ir ao cinema, comprar um livro, ler uma HQ e não podem, pois não tem acesso. Por isso mesmo programas de incentivos culturais, como a lei Rouanet, A Lei de Incentivo à Cultura ou os programas da Agência Nacional de Cinema são tão importantes e devem ser bem aplicados. Eles tornam possível não apenas a produção cultural, mas também o barateamento do acesso à essa cultura que é produzida pelos seres humanos para os seres humanos.

Publicidade

A Organização das Nações Unidas (ONU) coloca a cultura em dois artigos que compõe a carta dos Direitos Humanos Universais que, mesmo alguns tentando negar, são objetivos que precisam ser alcançados para todos os Humanos:

Artigo 22°
Toda a pessoa, como membro da sociedade, tem direito à segurança social; e pode legitimamente exigir a satisfação dos direitos econômicos, sociais e culturais indispensáveis, graças ao esforço nacional e à cooperação internacional, de harmonia com a organização e os recursos de cada país.

Artigo 27°
Toda a pessoa tem o direito de tomar parte livremente na vida cultural da comunidade, de fruir as artes e de participar no progresso científico e nos benefícios que deste resultam.

É essencial que todos nós, como nerds, mas principalmente como humanos, lutemos para que as nossas produções culturais e todas as outras estejam ao alcance de toda a população. Precisamos fugir cada vez mais das ideias tortas de sermos uma cultura hipster, no sentido de acharmos que quanto mais aquela obra for só do nosso grupinho e pouco conhecida é melhor. NÃO, velho! O melhor é que nossas obras favoritas tornem-se conhecidas, que mais gente aprenda as lições que aprendemos com o conteúdo que consumimos, que cada vez mais pessoas possam consumir conteúdo e se divertir, ter um momento de distração. Precisamos massificar a cultura Nerd, assim como qualquer outro tipo de cultura, e só temos a ganhar com isso. Mais público significa mais conteúdo e mais conteúdo significa mais diversão e aprendizado.

Nesse texto nem citei o preço absurdo de games, que são um conteúdo que eu adoro consumir.

Mas, para quem estava afim de descobrir o final da minha epopeia juvenil com O Senhor dos Anéis, em 2004 eu finalmente consegui ter acesso à obra, quando minha mãe, já numa condição financeira melhor graças aos avanços que o país teve naquela época, comprou o nosso primeiro computador e eu finalmente consegui encontrar um link de um PDF da obra completa.

Depois disso o Brasil continuou crescendo economicamente e em 2008, quando eu estava ganhando o meu primeiro dinheirinho suado e as vendas online baratearam o preço dos livros, eu finalmente consegui comprar os livros fisicamente para a minha coleção e, até hoje, eles tem um lugar especial na minha estante feita de caixas de madeira.

Porém não nos enganemos. O acesso à cultura Nerd realmente deu uma massificada nos últimos anos, graças aos meios de conseguir acesso pela internet e ao barateamento de algumas obras (Obrigado loja de games azulzinha e serviço de streaming de filmes e séries vermelhinho aos quais não direi o nome, a não ser que queiram comprar uma publicidade por aqui!), porém ela ainda é inacessível para uma parcela considerável da população.

Publicidade

Diferentemente da foto destaque desse texto, ninguém deve se contentar com esmolas dadas pelos mais ricos, o acesso à cultura e todas as outras coisas essenciais para a nossa existência é um direito e não uma esmola que pode ser dada por alguém.

Dito isso, precisamos agir em duas frentes: fazer com que essa parcela social, que não tem grana pra ter acesso à cultura, consiga atingir condições melhores de vida e, ao mesmo tempo, lutarmos para que o acesso a cultura seja universalizado e todos possam consumir todo tipo de arte, inclusive a Nerd.

Eu, como nerd que sou, adoro um desafio e sei que vocês também. Tem um monte de organizações e coletivos que tão brigando por essas coisas (e muitas outras) aos quais vocês podem se unir e brigar junto. Bora?


Compartilhe!

Rafael TAB

Rafael tem 26 anos e mora no interior de São Paulo. Diagnosticado com transtorno bipolar é fissurado por cultura pop e nerd desde os 9 anos de idade quando foi apresentado ao sítio do Pica Pau Amarelo e logo depois ao fantástico mundo de Harry Potter. Hoje é um grande fã de O Senhor dos Anéis e Star Trek. Tem fascinação por áudio-visual, tecnologia e games.

Este post tem um comentário

Deixe uma resposta

Fechar Menu