O comunismo na cultura pop durante a Guerra Fria
Superman carregando a foice e o martelo no peito só foi possível após a Guerra Fria.

O comunismo na cultura pop durante a Guerra Fria

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Hoje, 25 de outubro, se celebram 100 anos da revolução mais importante da história humana. Peço perdão à revolução Francesa e às outras revoluções da história, mas antes de 1917 jamais havia sido observado um levante como o dos russos. Algum tempo após a revolução, Lenin ascendeu ao poder e uma nova forma de organização econômica foi vista. Até então, o comunismo era apenas uma ideia, mas a partir desse ponto tornou-se uma prática. Muito pode-se falar sobre a revolução russa, seus efeitos e a abordagem que foi feita a ela. Mas, nesse texto, gostaria de avançar alguns anos na história e conversar sobre a Guerra Fria.

A Guerra Fria foi um período, que durou entre 1946 e 1989, extremamente militarizado e de tensões em polos opostos. De um lado os Estados Unidos sustentavam o modelo capitalista e de outro lado a União Soviética defendia o comunismo. Eles não tinham a possibilidade de entrar em um confronto direto. A bomba atômica era um medo real e um confronto entre as duas potências seria calamitoso. Outros países foram utilizados para a guerra, porém algo que foi marcante naquela época foi a mídia. EUA e URSS se utilizaram de produções culturais como uma forma de se digladiarem e conquistarem mentes e corações.

Hollywood estava em ascensão, assim como outras mídias como a literatura e os quadrinhos, que vendiam milhões. Os EUA tinha uma poderosa arma em sua mão e a usou. Desde campanhas para linkar todos os males do mundo ao comunismo até a utilização de seus símbolos como arma foi apenas um passo. As campanhas eram completamente desleais. Os Estados Unidos vivia um sério problema com drogas (há controvérsias, mas…) naquela época e centralizou uma campanha para disseminar que o comunismo era culpado. O sistema soviético estava tentando fazer com que a juventude yankee se perdesse ao bancar a entrada de drogas nos EUA. Hoje sabemos que tudo isso era balela, afinal o tráfico de drogas é uma das coisas mais capitalistas que existe. Porém na época isso colou e nossa visão sobre drogas permanece sendo influenciado pelo que foi dito naquela época até hoje.

Era um experimento máximo do monopólio da virtude. Tudo o que era bom era capitalismo, tudo o que era ruim era comunismo dentro dos lares estadunidenses.

Observação: Gostaria de lembrar que o ponto de vista desse texto é ocidental. É a partir do conteúdo que chegou ao nosso país. Como esse período se refletiu em sociedades do oriente, África e Oriente Médio é outra questão. Não podemos negar que o conteúdo de cultura pop que chegava ao Brasil tinha um posto de vista baseado nos Estados Unidos.

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Nos filmes, os heróis eram sempre símbolos do capitalismo. Enquanto que os vilões eram os espiões soviéticos ou remanescentes do nazismo que viviam no país comunista. Um dos grandes exemplos disso é a franquia 007. Porém outras obras não se furtaram de passar a mesma imagem. A imagem do espião ou, mais precisamente, da espiã soviética se tornou uma parte vital da cultura pop. Até hoje essa persona está em nossas mentes e, não raramente, vemos ela retornar em produções cinematográficas ou literárias. Isso também se liga com a questão da imagem da mulher passada na sociedade da época. O conceito de Femme Fatalle nasce nesse mesmo período.

Outro filme famoso dessa época foi Rocky IV. Na continuação da história do garanhão italiano, o inimigo não é apenas um boxeador soviético (apresentado como desumano, desleal e assassino, sendo um dos poucos personagens rasos da franquia), mas toda a União Soviética.

Outra ligação que pode ser feita são com os filmes de invasão alienígena. Os Aliens eram seres do exterior e tinha o desejo de tomar nossas terras e acabar com nossa liberdade. Não era raro ver críticos de cinema da época fazendo um paralelo com a “possível invasão comunista”.

Logicamente existiam aqueles diretores e roteiristas que se rejeitavam a seguir os ditames da Hollywood em guerra fria. Isso originou uma caça as bruxas baseada em listas negras de roteiristas, produtores, atores e diretores perseguidos e jogados para fora da indústria. Quem quiser saber mais sobre isso, sugiro que assistam ao filme Trumbo, de 2015.

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Nos quadrinhos foi um ambiente caótico. A DC havia sido o símbolo dos Estados Unidos durante a segunda guerra mundial. Por vários motivos, seus personagens saíram queimados de tal período. Por isso é muito raro vermos histórias do Superman enfrentando comunistas diretamente. Algo bem diferente do seu enfrentamento ao nazismo feito nos anos anteriores. Há até quadrinhos em que Superman invadia o bunker de Hitler e socava o maxilar do Fuher. Mas existe uma exceção na história do azulão. Ela ocorreu em 1945, quando a segunda guerra estava em seu período final e o embate com a União Soviética já estava sendo visto no horizonte. Em uma história em quadrinhos, Superman vai até a Europa e captura Hitler e Stalin. Esse fato igualava as duas figuras no imaginário popular e dava dicas do que estaria por vir. Após isso, a DC passou anos sem dialogar diretamente com o contexto político em suas histórias, porém o crescente fascismo visto em suas histórias era o reflexo da época fazendo efeito. Não raramente vemos Superman e Batman como vigilantes que se acham donos da justiça e a buscam pelas próprias mãos. Ambos, e outros, acabam sempre por iniciar impérios totalitários.

Nos quadrinhos, o Capitão América enfrentava hordas de comunistas

Mas na Marvel as coisas eram bem diferentes. A casa de ideias tinha o novo símbolo dos Estados Unidos em suas páginas. Capitão América representava os ideais americanos e capitalistas. O herói surgiu no início da primeira guerra mundial e era fruto do seu tempo. Tempos de guerra em que o nacionalismo e, por vezes, o fascismo prospera. O conservadorismo também se faz presente (e disso nem o Superman escapou) e recheia as histórias do Capitão. No início o personagem não fez sucesso, afinal Superman era o símbolo máximo na da década de 40. Mas, com a lacuna deixada pelo escoteiro azul, o herói teve o seu espaço. Ele era o novo símbolo. Carregava todos os ideais de virtude e, ainda por cima, era capitalista e nacionalista ao extremo. Seus inimigos eram remanescentes nazistas que viviam na União Soviética. Isso quando não eram os próprios soviéticos a ameaçar a paz e terem que ser interrompidos por Steve Rogers.

Maior do que o Capitão América nessa época, apenas o Homem Aranha. O aracnídeo alcançava um público diferente. Aqueles que percebiam que o capitalismo não era tão “bonzinho” assim e, muito menos, cheio de virtudes. Era interessante para Marvel ter páginas que se vinculavam aos dois ideais distintos. Como não havia um universo compartilhado ainda e cada um vivia em seu próprio mundo, isso não era um problema. Como o lucro proveniente de atingir duas parcelas do público era grande, isso não era um problema.

Com o tempo, a União Soviética acabou encontrando o seu fim. A Guerra Fria acabou e, por mais que ainda existam (e muito), as campanhas abertas contra o comunismo foram reduzidas. A chegada de uma nova geração de escritores no início dos anos 90 (muito aos quais eram daquela parcela que preferia Homem Aranha) também trouxe mudanças dentro das editoras. E aos poucos, essas mudanças vão sendo percebidas.

Algo muito similar aconteceu no cinema. Hoje temos um filme ruim como Transformers colocando Cuba (que ainda segue ideais similares à União Soviética) como o único lugar do mundo que não persegue os aliens estrangeiros. Isso seria inimaginável há alguns anos. Temos produções como o já citado Trumbo, V de Vingança… Séries como The Expanse, The Handmaid’s Tale e tantas outras que fazem críticas ao capitalismo e ao conservadorismo.

E eu sei que esse texto é bem superficial, mas contrasta com seu objetivo. Dar um panorama geral das coisas naquela época.

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Se formos analisar conceitualmente, o comunismo é apenas um sistema econômico. E, portanto, podendo surgir de diversas formas na realidade. Pode surgir aliada aos mais diversos tipos de pensamentos sociais e de formas organizações políticas.

Porém, no imaginário popular, as coisas não acontecem desse modo. Estamos vivendo em uma época de confrontos que, provavelmente, são necessários e formam um momento de ruptura. Grande parte das pessoas, principalmente os amantes da cultura pop, acabam tendo uma visão equivocada do que ele é. Nos cabe questionar até que ponto essa visão é baseada na realidade. Até que ponto essa visão foi criada por uma indústria de entretenimento que foi utilizada durante uma guerra?

Será que comunistas comem criancinhas? Será que comunistas não tem compaixão e empatia e assassinam milhões sem peso na consciência? Será que comunistas são ladrões, bandidos e corruptos? Será que o alien vai chegar e comer nossas cabeças ou vai acender o dedinho e dizer que quer ir para casa?

Esse texto visa levantar tais questionamentos de forma simplista. Há muito mais conteúdo que pode ser lido aí pelas internets da vida ou em bibliotecas. Vale ressaltar que o nosso próprio país também criou elementos e campanhas de ódio ao comunismo. Muito deles patrocinados pelos Estados Unidos durante a ditadura militar. A Operação Condor (operação criada para influenciar os países latinos), que por muito tempo foi um boato, já foi comprovada documentalmente por arquivos secretos que foram revelados ao público.

E vale ressaltar, também, que a cultura pop não é apenas isso que foi mostrado durante a guerra fria. Após o final da confronto (e até mesmo antes do final) ótimas obras mostraram uma ótica diferente e invadiram as páginas, por exemplo. Superman: Entre a Foice e o Martelo, Watchmen e V de Vingança são apenas algumas delas.

Se o Capitão América original combatia comunistas, Sam Wilson agora tem o manto e combate conservadores que perseguem imigrantes.

Nos últimos anos estamos sendo inundados por conteúdos diferentes. Conteúdos que assustam muitas pessoas que ainda carregam na memória o que foi a cultura pop da Guerra Fria. Um Capitão América negro, que luta nas fronteiras dos Estados Unidos, enfrenta grupos conservadores e protege imigrantes é algo que assusta. É algo que nos faz rever alguns dos nossos preconceitos. É um sinal de tempos diferentes.

Uma Capitã Marvel mulher, muçulmana e que critica o capitalismo em suas páginas é algo que assusta bastante, né? Filmes como O Jovem Marx serem amplamente divulgados nas redes sociais também.

Tirando o jovem Marx, nenhum deles é um símbolo de comunismo. Apenas símbolos de lutas sociais e de buscas de superação de pensamentos conservadores. Porém nem isso seria possível em tempos anteriores, como podemos ver.

Mas esses sustos são necessários, para nos desprendermos dos laços colocados pela cultura pop anterior. Talvez, aos poucos, seja hora de curtir um novo alvorecer, uma nova cultura, um novo cinema, novos quadrinhos, etc.


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Rafael TAB

Rafael tem 26 anos e mora no interior de São Paulo. Diagnosticado com transtorno bipolar é fissurado por cultura pop e nerd desde os 9 anos de idade quando foi apresentado ao sítio do Pica Pau Amarelo e logo depois ao fantástico mundo de Harry Potter. Hoje é um grande fã de O Senhor dos Anéis e Star Trek. Tem fascinação por áudio-visual, tecnologia e games.

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