NPR e outras gigantes compram o Pocket Cast. O que isso pode significar para o mercado de Podcasts?

NPR e outras gigantes compram o Pocket Cast. O que isso pode significar para o mercado de Podcasts?

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Podcast é uma mídia relativamente nova. Trazendo vários conceitos do rádio e os reimaginando, vemos que esse tipo de conteúdo está crescendo cada vez mais. O mercado brasileiro ainda é escasso, porém nos Estados Unidos a mídia cresce cada vez mais. Como principal forma de divulgação do conteúdo, os agregadores são partes vitais desse mercado. Temos como o principal deles o Itunes, porém outras gigantes estão entrando na parada para disputar os meios de divulgação. Nos últimos tempos tivemos as entradas do Spotify e da Deezer nesse mercado.

Existem diversos outros agregadores disponíveis, dentre os não citados, o maior deles é o Pocket Cast. Disponível para IOS e Android, o aplicativo agrega os conteúdos de podcasts e distribui para os ouvintes. Nessa quinta-feira foi anunciado a compra do Pocket Cast por um consórcio que uniu a NPR (National Public Radio), o WNYC Studios, a WBEZ e o podcast This American Life. Mas quem são eles?

A NPR é uma rede pública de rádio dos Estados Unidos que entrou de cabeça na Web durante os anos 2000. É dona do podcast mais baixado no mundo, o In The Dark, que figura no top 1 da lista do Itunes. Também é responsável pelo podcast do TED Talks, segundo no ranking. A WNYC Studios é responsável pela produção em áudio de vários jornais, como o The New York Times, figurando como o segundo maior podcast do mundo com o seu The Daily. Já a WBEZ é uma rede de rádios baseada em Chicago, que também conta com grandes números.

Por último, temos o This American Life que é um caso à parte. Nos últimos anos, a rede de podcast foi uma das grandes responsáveis pelo crescimento mundial da mídia, aparecendo como quinta maior rede de podcast do mundo e tem o seu podcast The Serial figurando em sexto lugar na lista do Itunes. Desde seu início o podcast é produzido em parceria com a Chicago Media, rede de mídias relacionado ao WBEZ.

O que todas elas tem em comum? Todas se configuram como veículos de comunicação sem fins lucrativos (no caso da NPR é uma empresa pública) e esse foi um dos grandes motivos para que o Pocket Cast aceitasse ser vendido. Shifty Jelly, desenvolvedor do aplicativo, disse em um post ter recebido outras ofertas, porém optou por se juntar à esse consórcio por acreditar nos objetivos que unem essas organizações.

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As quatro são representantes do bastião de luta por uma comunicação pública nos Estados Unidos e enxergaram no podcast um meio de criar uma rede alternativa de comunicação. Nas últimas décadas elas perderam bastante espaço no rádio, televisão e mídia impressa para as grandes redes dos Estados Unidos. Fox (em breve Disney), Warner, NBC e outras representantes da iniciativa privada conseguem, com seu poderio financeiro, esmagar as concorrentes públicas ou sem fins lucrativos. A saída para essas redes foi a internet, entrando em meios ainda não explorados por essas outras redes. E esse é o caso dos podcasts.

Porém, enquanto se esforça para crescer, a mídia acaba sendo visualizada por essas grandes empresas. A Marvel/Disney já começa a lançar histórias por podcasts, por exemplo. Há um receio interno de que as corporações privadas acabem tomando o protagonismo da mídia. As redes públicas dos Estados Unidos, por falta de poderio econômico, nada poderiam fazer.

Esse debate é algo que encontra diretamente o debate mundial sobre a democratização da mídia e a necessidade de regulamentação. A mídia nos Estados Unidos é pouco regulamentada, chegando ao ponto de vermos um monstro surgindo com a compra da Fox pela Disney e nada podendo ser feito. Essa concentração de poder de comunicação nas mãos de tão poucas pessoas acaba sempre esmagando a democracia de países, fazendo com que toda a comunicação tenha um viés único e encerrando os debates. Quem vive no Brasil sabe bem como isso funciona por conta do poderio do grupo Globo que domina a televisão, rádio, jornais e grande parte do nosso tráfego de internet.

A falta de regulamentação acaba colocando a mídia nas mãos de quem tem mais poder econômico. Consequentemente, esse poder econômico se torna poder político.

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Com o crescimento da internet, logo os grandes grupos de mídia vieram para cá, o que foi algo fácil. Eles se aproveitaram da falta de regulamentação da rede para definir seu poderio online. Logicamente contando com o aporte dos grandes grupos de divulgação de conteúdo, empresas privadas como Google e Facebook.

Além disso, a falta de regulamentação também acaba gerando outros fatores negativos. A divulgação ampla de notícias falsas, por meio de sites criados por pessoas com poderio econômico e político, acaba se tornando outro problema que ataca diretamente as democracias ao redor do mundo.

Há pouco tempo outra questão se tornou evidente, com o escândalo da Cambridge Analytica, que usou dados de usuários em processos eleitorais sem a autorização dos donos desses dados. O pior disso? É que a empresa nem mesmo cometeu um crime, legalmente falando, já que não havia regulamentação sobre isso.

E para que estou levantando todas essas questões?

É fácil perceber que no meio de todas essas métricas de comunicações e mídias, os podcasts ainda estão em um patamar mais “santificado”. Atualmente os maiores podcasts do mundo são operados por redes de comunicações públicas ou sem fins lucrativos. Além delas, usando o Brasil como exemplo, esse tipo de mídia é dominado por pequenos grupos privados de comunicação e indivíduos que gostam de criar conteúdo.

O crescimento dos podcasts faz com que essa mídia se torne importante economicamente. Isso pode fazer com que essa realidade seja modificada em breve, mesmo que de maneira desleal. Não é difícil imaginar o cenário em que uma rede como a Disney ou a Globo fechem parcerias milionárias com a Apple para ampliar a divulgação de seu conteúdo no Itunes, Spotify ou Deezer, assim como fazem com Google e Facebook. Ao mesmo tempo é difícil imaginar um cenário à curto prazo em que os podcasts sejam regulamentados para conter o poder expansionista das grandes mídias privadas.

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Portanto, ao comprar o agregador mais próximo de todas, como é o Pocket Cast, essas organizações dão o primeiro passo para se defenderem do poderio econômico que logo deve chegar e tentar dominar esse formato de conteúdo. É uma linha de defesa, mesmo que ainda frágil ao compararmos com o poderio de Apple, Spotify e Deezer, para resistir à isso.

Por serem empresas públicas comprando um dos maiores meios de divulgação de podcasts do mundo, tenho esperanças (e espero não queimar a língua) de que isso deve ser encarado como uma ótima notícia para os pequenos grupos de mídias e indivíduos aventureiros que querem ter suas vozes escutadas nos meios de comunicação.


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Rafael TAB

Rafael tem 26 anos e mora no interior de São Paulo. Diagnosticado com transtorno bipolar é fissurado por cultura pop e nerd desde os 9 anos de idade quando foi apresentado ao sítio do Pica Pau Amarelo e logo depois ao fantástico mundo de Harry Potter. Hoje é um grande fã de O Senhor dos Anéis e Star Trek. Tem fascinação por áudio-visual, tecnologia e games.

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