Netflix acerta em produção, mas erra em escalação em O Matador
O ator português Diogo Morgado protagoniza o filme brasileiro O Matador.

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Os melhor mitos sempre surgem da união entre personagens reais e lendas. É assim, por exemplo, com Ragnar Lothbrok em Vikings que, entre personagens históricos e contos lendários, se tornou um símbolo da população Nórdica. Em O Matador, dirigido por Marcelo Galvão, o modo de contar história e misturar realidade com o fantástico está presente, fazendo surgir Cabeleira, mais um dos vários mitos que agora passam a integrar a cultura brasileira. A montagem do filme leva a acreditar nisso e cria uma esfera mítica em meio ao personagem.

Quando a Netflix resolveu produzir obras brasileiras, um certo alívio bateu em meu coração. Sim. Ainda há a problemática dela ser uma empresa gringa e de levar lucros sobre produção para fora do país e esse é um problema a ser superado apenas por meio do fortalecimento do cinema nacional. Porém, ao mesmo tempo, o fato de não termos apenas a Globo Filmes monopolizando a produção cinematográfica nacional é um alento.

Como esperado de uma produção da Netflix de 2015 (já que de lá pra cá, alguns filmes duvidosos foram feitos pela empresa) O Matador tem uma qualidade que beira o excelente. A proposta de produzir um filme de Faroeste brasileiro não é original, mas outras produções que tentaram a formula acabaram caindo no erro de tentar emular o cinema americano ou de não se levarem a sério. Já a produção de Marcelo Galvão se leva a sério e faz um faroeste com a cara do Brasil. A começar pela excelente trilha sonora e passando por toda a ambientação e criação de personagens, muita coisa remete ao Brasil.

O modelo narrativo remete aos melhores filmes de Clint Estwood, porém sempre trazendo o Brasil como base de sustentação e esse é o seu maior acerto.

Mas isso acaba sendo levado à invisibilidade pelo maior erro da produção do filme. A Netflix resolveu fazer um filme completamente brasileiro. Com produção, direção, filmagem, montagem, trilha sonora e atuações brasileiras. Mas porque escolher um ator português para viver o personagem principal do filme? Diogo Morgado é um bom ator e demonstra isso em algumas partes do filme, mas ele acaba sendo trucidado pelo tempo e região em que a história se passa. Um filme ambientado na caatinga do início do século 20 não poderia deixar de trazer uma precisão regionalista, principalmente por meio da língua. Dificilmente um ator português conseguiria reproduzir tal regionalismo. A solução foi fazer um protagonista quase mudo, porém nos momentos em que ele fala e, até mesmo, no modo como ele se movimenta em cena, entrega que o personagem está completamente fora de seu lugar.

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Mesmo que o filme tenha uma desculpa para isso, já que cabeleira nunca havia convivido com uma sociedade, ele ainda assim conviveu com um homem. Sete Oreias é como um pai para o personagem e ensinou tudo para ele. Além de ensiná-lo a caçar e a matar, também deve ter ensinado o protagonista a falar e fazer um personagem quase mudo e que, quando fala, está completamente desencaixado não faz o menor sentido. Além disso, fazer com que o primeiro filme nacional tenha um protagonista não brasileira parece ter sido um erro grave da produtora e central de streaming.

Há outros atores estrangeiros no filme, mas esse ajudam a obra ao trazerem um contexto bem brasileiro para o filme. Os atores Etienne Chicot (francês) e Maria de Medeiros (portuguesa) interpretam o casal francês que é antagonista do filme. Isso referência ao histórico de colonização e de exploração que nosso país sofreu por países estrangeiros. A França é apenas um exemplo entre todos. Em uma época onde nossos atuais governantes querem vender nossa pátria aos Estados Unidos (Temer e Doria são as principais imagens desse fato), é importante que um filme de época resgate, mesmo que de um modo fantástico, o quanto essa exploração é causa das principais mazelas sociais que afetam o Brasil da época e seguem até hoje. Ambos veem os brasileiros da trama apenas como instrumento para manter e aumentar sua fortuna e são a causa de vários problemas sociais abordados na obra. Além disso, há uma cena musical imperdível protagonizada por ambos.

Além disso, o filme faz com que o último desafio real do protagonista seja um matador de matadores dos estadunidense, fazendo uma clara homenagem aos filmes de faroeste da terra do Tio Sam e, ao mesmo tempo, podendo tecer uma crítica a presença histórica do país norte-americano no Brasil.

Fica o conselho para que prestem atenção em todas as cenas, pois o modo como Marcelo Galvão aborda os detalhes é sensacional. Além disso, várias cenas trágicas ganham olhares épicos pela visão do diretor, o que só influi em seu ótimo trabalho artístico nessa obra.

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O Matador consegue cumprir bem o papel de abordar as dificuldades do sertão brasileiro de uma forma fantástica, misturando realidade e lendas. O filme consegue criar um mito, porém seu protagonista acaba sendo uma fraqueza que atrapalha bastante a obra.

Com direção e roteiro de Marcelo Galvão e elenco trazendo Diogo Morgado, Deto Montenegro, Maria de Medeiros, Nil Marcondes, Marat Descartes, Ettiene Chicot, Mel Lisboa, Igor Cotrim e Will Roberts, O Matador está disponível na Netflix.

Observação: Será que a escolha do protagonista é uma vingança colombiana pelo Pablo Escobar de Wagner Moura?


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Rafael TAB

Rafael tem 26 anos e mora no interior de São Paulo. Diagnosticado com transtorno bipolar é fissurado por cultura pop e nerd desde os 9 anos de idade quando foi apresentado ao sítio do Pica Pau Amarelo e logo depois ao fantástico mundo de Harry Potter. Hoje é um grande fã de O Senhor dos Anéis e Star Trek. Tem fascinação por áudio-visual, tecnologia e games.

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