Mr. Jones traz um dos melhores olhares sobre transtornos mentais ao cinema
Romance acaba sendo o ponto fraco do filme.

Mr. Jones traz um dos melhores olhares sobre transtornos mentais ao cinema

Compartilhe!

Publicidade

Em meados de 2016 eu tive uma fase estranha na minha vida. Passava por uns momentos de muito alegria, agitação e descontrole que intercalavam com momentos de profunda depressão e desespero. Logo fui encaminhado por uma amiga para uma consulta psiquiátrica e logo me veio à mente o questionamento sobre minha sanidade. Será que eu sou louco? Com o tempo, esse questionamento foi se aliviando, assim como o conceito sobre a loucura, que é uma palavra que abarca qualquer momento em que o comportamento de uma pessoa desvia daquele que a sociedade em geral julga como aceitável. Não queria entrar no clichê de falar que todo mundo tem um pouco de loucura se for por esse conceito, porém TODO MUNDO TEM UM POUCO DE LOUCURA.

Ir ao psiquiatra não me matou. Muito pelo contrário, me ajudou a definir um novo olhar para o mundo e para mim mesmo. Logo fui diagnosticado com Transtorno Afetivo Bipolar, antigamente chamado de Psicose Maníaco-Depressiva. Muita coisa se seguiu à esse diagnóstico e descambou por eu estar aqui, criando esse blog que inicialmente era o meu espaço pessoal e nada privado para escrever e que, em poucos dias, já ganhou o interesse de algumas pessoas que também estão em busca de um espaço para divulgar os seus pensamentos sobre cultura pop e arte. Escrever vem sendo um ótimo remédio para me manter estável, mesmo com a loucura que é o mundo em que vivemos e que, junto com vários amigos e amigas, me esforço cotidianamente para mudar.

Muitas dúvidas surgem quando falamos de transtornos metais em geral e não é diferente com o Transtorno Bipolar. Há vários livros acadêmicos disponíveis sobre o tema e, como alguém com a doença e que sempre foi um devorador de palavras, li muitos e muitos. Mas ainda acredito que a arte literária, cinematográfica e gamer (Hellblade: Senua’s Sacrifice tá aí pra provar) consegue lidar e massificar o conceito sobre vários temas de maneira muito mais direta do que um livro acadêmico, o que não faz com eles percam a sua importância monumental por isso.

E o cinema produziu, ao menos, uma ótima obra sobre esse transtorno citado. Esqueçam filmes como O Lado Bom da Vida que trata sobre o tema de uma forma bem bosta ou romancezinhos clichês como Sentimentos que Curam.

Em 1993, o diretor Mike Figgis, o mesmo de Despedida em Las Vegas e Garganta do Diabo, lançou o filme Mr. Jones, que contou com Richard Gere (Uma Linda Mulher e Infidelidade) e Lena Olin (O Último Portal e Chocolate). A obra faz um recorte da vida de Mr. Jones, personagem que dá nome ao filme, mostrando ele já conhecendo a doença e se negando à fazer qualquer tipo de tratamento mesmo sob o risco de ser preso, pois os seus períodos de euforia (O transtorno bipolar é caracterizado por períodos de euforia e de depressão, que podem ocorrer em um espaço de meses ou, em alguns casos mais raros, de horas) acabava cometendo alguns crimes e fazendo dívidas que não poderia parar (a compulsividade por compras também é uma característica comum nos períodos eufóricos). Nisso ele conhece a Dra. Elisabeth Bowen, uma médica psiquiátrica especializada em sua doença, que sente um impulso por trata-lo, mesmo sem ele dispor de plano de saúde, e acaba salvando o personagem de Gere de ir para a cadeia.

Publicidade

Como esperado (e desnecessário) para um filme dos anos 90 (em que todo filme precisava ter um romancezinho água com açúcar para ser vendido. Ainda bem que isso mudou, né? #SQN), um romance ocorre entre os dois que se veem no meio de disputas internas por estarem apaixonados enquanto mantém uma relação de médica e paciente. Em alguns momentos considero isso um problema do filme, mas ele acaba utilizando isso para tratar de temas relevantes sobre a ética médica e a vulnerabilidade de alguém que está em um episódio pesado de algum transtorno. Porém isso não faz com que esse romance seja necessário para o desenvolvimento do recorte de história que ele almeja contar.

Fora esse detalhe, a história se desenvolve muito bem, dando uma bela cutucada na questão de saúde pública que é um problema histórico dos Estados Unidos e que, há pouco tempo, teve uma melhora com a lei de saúde pública que chamam de Obama Care, mas que sofre com a possibilidade de um retrocesso no governo Trump. Ele também aborda questões sobre tratamento humanitário e o papel desumano que a lei e o sistema capitalista por vezes tem sobre pessoas que sofrem de algum tipo de transtorno mental. Também relembra a necessidade de se lutar por um tratamento de saúde mental humanizado em nosso país, que é marcado por uma cultura manicomial repleta de culturas e que nos últimos anos vem avançando com a pauta da luta antimanicomial (que enfrenta forte resistência no atual governo).

A atuação de Richard Gere está impecável e em várias vezes me vi no personagem durante suas manifestações de euforia ou de depressão. O ator captou a essência do comportamento que uma pessoa com transtorno bipolar tem e o filme em algumas ocasiões se torna engraçado e leve em certas partes, em que está liberado rir, contrastando com o peso e tristeza que assume logo depois. A atuação de Lena Ollin é bastante ok, sendo que sua personagem não gera uma necessidade de atuação mais profunda na maior parte do tempo, porém ela acaba pecando nos momentos em que tem que demonstrar emoções positivas.

Richard Gere interpreta o personagem título do filme, Mr. Jones, que tem transtorno bipolar.
Publicidade

Além dos dois atores principais, outro personagem importante no filme é Howard, vivido pelo ator Delroy Lindo (60 Segundos e Romeu Tem Que Morrer), que é a única pessoa com quem o personagem título desenvolve algum laço de amizade. Sua atuação é formidável e merece ser assistida. Ainda me pergunto o motivo para que Lindo não tenha conseguido outros papéis de destaque no cinema. Levanto as hipóteses de que talvez a sua boa atuação nesse filme tenha sido uma exceção ou talvez tenha sido o velho racismo que fechou as portas para um ótimo ator nos anos 90 por ele ser negro.

Cabe ressaltar que o filme não tem um começo e nem um fim definido, sendo um recorte da vida do personagem principal e isso o torna uma obra ainda mais atraente, pois ficamos sabendo pouco do seu passado (apenas alguns flashbacks) e menos ainda do seu futuro, já que o Transtorno Bipolar é uma doença incurável e que acompanha as pessoas pelo resto de suas vidas.

Confesso que Mr. Jones é um filme bem complicado de ser encontrado. Não o achei em nenhum serviço de Streaming disponível no Brasil. Porém nessa internet maravilinda encontrar e assistir uma obra tão boa quanto essa (e algumas bem ruins também) não é um grande desafio. Deem seus pulos, galera!

Atenção apenas para não fazer confusão com um filme de terror que carrega o mesmo título e foi lançado em 2013. Ele é bem ruim e recomendo que caso se engane, pause o player no exato momento em que perceber e poupe os seus sentidos de tamanho mal.

Apenas para terminar, acho que perceberam que a doença intitulada Transtorno Afetivo Bipolar pode ser reconhecida em português pela siga T.A.B., ganhando o mesmo nome do teclado de computador que é utilizado em atalhos para mudar de janela ou aba.

Publicidade

Esse blog foi criado por um motivo terapêutico por mim (e espero que cresça bastante com as novas pessoas que em breve vão começar a colaborar) e por isso mesmo recebeu esse nome. Porém algo que faz parte de mim como um nerd que busca mudanças é que as coisas que eu amo assistir, ler, escutar e jogar ganhem uma conotação essencial com o objetivo de auxiliar nas mudanças sociais necessárias ao mundo. Portanto o Aperte o TAB, assim como a tecla com a qual ele compartilha o nome, tem também a tarefa de tratar de temas da cultura nerd de uma maneira política e relevante, mudando a janela e aba da sociedade. E isso ocorrerá, seja por mim, ou seja por algum colaborador que possa se interessar em escrever aqui também.

Minha estratégia foi a de criar um certo conteúdo, com um número mínimo de posts antes de lançar oficialmente o blog. Nesses últimos dias creio que alcancei esse número e, com essa análise, o blog está lançado oficialmente.

Aguardem por muito mais conteúdo produzido por mim e pelos colaboradores que estão chegando e, em breve, também serão lançados um canal de Youtube também chamado Aperta o TAB e um podcast chamado Vírus Nerd, que é um projeto antigo que eu tinha com alguns amigos, em especial o Guilherme Frodo, e será relançado em breve. Ambos terão o mesmo objetivo que esse espaço.

Caso você se interesse, tem um link ali no menu principal do site escrito Colabore, onde você pode se inscrever.


Compartilhe!

Rafael TAB

Rafael tem 26 anos e mora no interior de São Paulo. Diagnosticado com transtorno bipolar é fissurado por cultura pop e nerd desde os 9 anos de idade quando foi apresentado ao sítio do Pica Pau Amarelo e logo depois ao fantástico mundo de Harry Potter. Hoje é um grande fã de O Senhor dos Anéis e Star Trek. Tem fascinação por áudio-visual, tecnologia e games.

Deixe uma resposta

Fechar Menu