Mesmo em sua pior temporada, Black Mirror continua sendo bom!

Mesmo em sua pior temporada, Black Mirror continua sendo bom!

No final de dezembro chegou ao Netflix os 6 episódios da quarta temporada de Black Mirror. A série traz diversos debates sobre a relação entre humanidade e tecnologia. Seus primeiros anos foram bastante famosos devido à sua visão desesperançosa do que nos aguarda no futuro, trazendo elementos que beiravam o fantástico, porém, ao mesmo tempo, pareciam tão próximos. Agora no novo ano essa foi a primeira mudança. Um pouco de esperança foi colocada nos episódios. Mesmo os que não apresentam um final feliz, acabam tendo um tom agridoce. Alguns fãs comentaram que isso desvirtua a proposta da série, mas creio que esse argumento é bem fraco. Parece que esse quarto ano veio para desmistificar certezas que o público tinha sobre a série.

Um dos pontos altos desse ano, é o protagonismo feminino, presente em todos os episódios.

USS Callister

Logo na primeira cena do primeiro episódio, somos pegos em um momento um tanto estranho. O episódio USS Callister é uma homenagem à Star Trek, a qual Charlie Brooker, criador da série, também parece ter um imenso respeito. O tom inicial é, no mínimo, cômico, mas causa um estranhamento e desconforto que será explicado mais para frente. Considero um dos melhores episódios da temporada, por conta do seu tom crítico em relação à comunidades online e ambiente de trabalho. O único comentário sobre o ambiente de trabalho de Robert Daily é a de que, com exceção da protagonista Nannete, ninguém presta.

Arkhangel

Já o segundo episódio, Arkhangel é, provavelmente, o mais aterrorizante. Marie implanta uma tecnologia em sua filha, Sara, que a permite não apenas acompanhar cada passo de sua filha, como censurar cenas da vida da menina. O objetivo é impedir traumas, mas logo percebemos o quanto essa censura pode atrapalhar o desenvolvimento de um ser humano. Estar impedido de se deparar com violência, nudez e outros elementos, acaba por tornar confuso toda a nossa interação social. É um aviso para pais superprotetores, que preferem a proibição ao diálogo. Porém o melhor do episódio está guardado para o final, quando o comportamento controlador da mãe é colocado em evidência. Apresenta um final bastante agridoce.

Crocodile

Outro episódio que começa com um estranhamento. Desta vez é um homicídio culposo (sem intenção de matar) que inicia sendo encoberto por um casal, que, bêbados, atropelam um homem na rua. Esse fato é esquecido por ano, até que o homem presente na cena inicial se arrepende e decide confessar seu crime. Ele, então, é assassinado pela protagonista do episódio, Mia, que agora tem uma vida estruturada e uma carreira de sucesso, não desejando perder isso tudo. Ao longo do episódio, acompanhamos a investigação de uma agente de seguros, que está tentando descobrir elementos de um atropelamento que ocorreu no mesmo momento em que Mia assassinava o seu antigo amigo. Quando essas histórias se encontram, o episódio se torna poderoso.

Hang the DJ

Esse episódio talvez seja o mais próximo da realidade, ao mesmo que distante. Somos apresentados a um programa de relacionamento bastante bizarro. Nele, os pretendentes, são colocados em diversas relações. Cada uma delas tem um tempo de duração estipulado por um código de programação, que utiliza as relações para traçar perfis das pessoas e encontrar o pretendente perfeito para cada uma delas. O protagonismo é do casal formado por Amy e Frank que, mesmo apresentando muita química, tem seu tempo de relação estipulado em apenas algumas horas. O andamento do episódio levante diversos questionamentos sobre como estamos formando nossas relações e o final mostra algo tão próximo de nós que assusta.

Metalhead

Apesar da bela fotografia, foi o ponto baixo da temporada. Um episódio apresentando um futuro distópico em que uma espécie da cachorro robótico está exterminando todas as formas de vida. Nele vemos a protagonista Bella tentando fugir de um desses robôs. Nada demais, apenas um episódio de fuga e claustrofobia.

A imagem mostra uma jovem mulher negra de costas. Ela veste branco e tem o cabelo curto. Ao fundo há uma casa no deserto. Acima do telhado há um letreiro vermelho com a forma de um rosto gritando. Nele está escrito "Black Museum".
Black Museum é um desperdício de potencial

Black Museum

Certamente tinha o potencial de ser o principal episódio da temporada, porém deixou esse potencial de lado ao apostar em dois contos menores (e completamente sem graça) em seu meio. A história principal é poderosa e alia os debates sobre tecnologia e racismo, debatendo o que é a consciência humana, criticando o sistema prisional e muito mais. Poderia ser o melhor episódio da história de Black Mirror, mas as histórias secundárias acabam gerando uma barriga desnecessária para o andamento da história.

Nessa episódio, a protagonista Nisha entra no Black Museum. Um museu comandado por um homem chamado Raynes e que tem como foco a apresentação de peças tecnológicas envolvidas em diversos crimes. Vários easter eggs estão presentes no ambiente e finalmente somos apresentados à um universo compartilhado em Black Mirror. Esses elementos poderiam ter sido mais utilizados, para preparar o terreno do final poderoso do episódio, mas ao se amparar em histórias originais fracas, acaba perdendo muito. As histórias parecem ter sido roteiros rejeitados da série e os elementos são apenas jogados e servem de fan service.


A conclusão é que certamente não foi a melhor temporada de Black Mirror, mas ainda foi uma boa temporada da série. Alguns episódios foram marcantes e apresentam possibilidades interessantes de debates, porém os dois últimos acabaram deixando a desejar. Crocodile é qualquer coisa (não há definição melhor para ele) e Black Museum tem um potencial completamente desperdiçado, mesmo com um poderoso final.

Rafael TAB

Rafael tem 26 anos e mora no interior de São Paulo. Diagnosticado com transtorno bipolar é fissurado por cultura pop e nerd desde os 9 anos de idade quando foi apresentado ao sítio do Pica Pau Amarelo e logo depois ao fantástico mundo de Harry Potter. Hoje é um grande fã de O Senhor dos Anéis e Star Trek. Tem fascinação por áudio-visual, tecnologia e games.
Fechar Menu