Hellblade: Senua’s Sacrifice apresenta imersão absoluta com personagem psicótica
Senua, a personagem principal do game Hellblade: Senua's Sacrifice

Hellblade: Senua’s Sacrifice apresenta imersão absoluta com personagem psicótica

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Perder o controle sobre mente e corpo sempre foram medos primordiais, encontrados por toda a cultura humana e, quando ocorriam, geravam sentimentos que passeavam pelo campo do terror e da divinificação. Desde contato com o mundo dos espíritos, deuses e demônios e possessões de entidades ligadas à escuridão até os estudos sobre a saúde mental e doenças como o transtorno bipolar, a depressão e a esquizofrenia, sempre tentamos encontrar explicações para pessoas que se perdiam na “escuridão” de sua mente.

O Brasil passou por períodos problemáticos quanto à saúde mental das pessoas. Nos tornamos referência mundial em manicômios e hospitais psiquiátricos e apenas há pouco tempo passamos a pensar sobre o tratamento humanitário para pessoas com questões sérias acerca da sua saúde mental. Ainda estamos muito longe de alcançar um tratamento universal humanitário para essas pessoas, em grande parte devido à desumanização que elas sofreram nas culturas ocidentais desde a baixa idade médias.

A Psicose, um dos sintomas que podem aparecer em diversas doenças como a depressão, o transtorno bipolar e a esquizofrenia, é um tabu dentro da cultura Pop. Não por ser negligenciado, mas por terem poucas obras que retratam com fidelidade os seus traços. Muitas vezes ficando presas a filmes de terror, acaba sendo um desafio encontrar transposições realistas de pessoas psicóticas dentro da arte.

Hellblade: Senua’s Sacrifice apresenta personagem psicótica em um mundo fantástico e amedrontador.

Hellblade: Senua’s Sacrifice, da produtora Ninja Theory, assumiu a responsabilidade de tratar deste tema em uma mídia que raramente conversou sobre temas médicos com seu público: Os vídeo-games.

O Game apresenta a personagem Senua, uma garota que invade Hell, uma espécie de inferno nórdico, para recuperar aquele por quem ela se apaixonou. Em seu caminho se encontram diversos puzzles e combates contra hordas de demônios e deuses da cultura viking que se tornam cada vez mais difíceis ao decorrer do game.

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Essa sinopse faria com que Hellblade se assemelhasse à muitos outros jogos lançados anualmente, porém as aventuras de Senua se encontram à uma distância considerável de outros jogos do gênero. As batalhas e puzzles estão longe de ser o seu maior desafio, pois a protagonista terá que lidar com a própria escuridão alimentada por vozes que por vezes a encorajam, amedrontam ou confundem.

A personagem principal tem uma doença mental chamada esquizofrenia em que, em seu estado psicótico, gera vozes e confusões mentais, além de outros sintomas. Tal tema já foi abordado em diversas obras literárias e cinemáticas, porém abriga-la no mundo dos vídeo-games deve ter sido um desafio e tanto, que a Ninja Theory, produtora britânica responsável por games como DMC: Devil May Cry e Disney Infinite 3.0, assumiu e, tenho que dizer, com esplendor.

Além das batalhas, diversos puzzles são apresentados durante o jogo.

Jogabilidade

A Jogabilidade do game não traz nenhuma novidade, com batalhas que muito lembram outros jogos como The Witcher 3 e a séria Batman Arkham e puzzles bastante desafiadores que remetem aos primórdios de Prince of Persia ou Tomb Raider.

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Os Puzzles são um belo exemplo de casamento entre jogabilidade e enredo, trazendo temáticas relacionadas aos deus nórdicos apresentados. Como puzzles relacionados ao fogo do deus Surtur que esbanjam desesperos na necessidade vencer o tempo contra o fogo que consome o cenário.

Já as batalhas são bem genéricas quando confrontamos demônios comuns, mas encontram mecânicas muito boas nas lutas contra os chefes de cada parte do jogo.

O game, fugindo dos muitos lançados hoje em dia, não é um sandbox, apresentando um ambiente muitas vezes claustrofóbico.

Muitas vezes, a personagem apresenta dificuldades de locomoção e movimentação, porém isso parece ser algo feito propositalmente para auxiliar na imersão do jogo. Olhar para trás e para os lados é sempre complicado, o que acaba auxiliando na criação do desespero proposto pela imersão do jogo.

Enredo

O enredo apresentado por Hellblade é bem simples e clássico, remetendo à obra A Divina Comédias de Dante Alighieri, porém invertendo o gênero dos personagens. Até mesmo o personagem auxiliador, que apresenta o mundo está presente no papel de Druth, que emula muito bem a importância de Virgil na história do escritor italiano, situando a personagem principal e você à cultura nórdica e aos elementos do jogo.

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Vários elementos da cultura viking são apresentados no game, inclusive a Águia de Sangue, já retratada na série Vikings.

Ambientação

Nesse item encontra-se o ponto mais forte de Hellblade. A ambientação do jogo é incrível e faz com que você submerja na personagem.

Bons ambientes de jogos são aqueles que fazem com que você se sinta na pele do personagem e tendo que tomar suas decisões e executar suas ações, mas Hellblade se situa em um patamar acima desse, até então inexistente, ao colocar você como uma das vozes e imagens que habitam a mente da personagem principal. Ela conversa com você, assim como outras vozes que te colocam ao mesmo tempo no controle e completamente fora dele.

O tempo todo você consegue sentir as sensações da personagem. Medo, desespero, confusão e alívio são sentimentos constantes que o jogo te passa com excelência, ao mesmo tempo que tira o controle da sua mão.

As vozes são ótimos auxílios durante as lutas, dando dicas de quando um inimigo encontra-se atrás de você e pronto pra te atacar, mas não são plenamente confiáveis, pois suas dicas, algumas vezes, são falsas e fazem você se mover de maneira inútil ao desviar de golpes inexistentes ou ficar com medo de alguma criatura imaginária, fazendo com que você olhe para trás inutilmente em alguns momentos. Elas são as principais responsáveis por passarem a sensação de que você não está no controle de tudo.

A cultura nórdica é bem retratada pelo game, porém foge do clichê de ostentação e maravilhiamento imposto pela cultura pop, fazendo com que os nórdicos sejam tratados como um povo dominador. Afinal, foram os povos do norte que atacaram a vila da personagem e a colocaram naquela situação. Muitas vezes você sente o ódio de Senua por esse povo e pelos seus deuses, muito bem retratados na imagem do jogo.

Além disso, a jogabilidade linear consegue passar uma sensação de claustrofobia que te faz submergir ainda mais na psique da protagonista, com cenas em que o ambiente até então bastante aberto, torna-se completamente fechado e desesperador.

Som

O som do jogo merece elogios adicionais próprios por ser o responsável por grande parte da imersão proposta pelo título.

Mesmo apresentando uma trilha sonora belíssima que remete à cultura nórdica, é o silêncio que se sobrepõe como essencial para auxiliar na imersão do game. Em certos momentos do jogo apenas as muitas e muitas vozes da cabeça de Senua são escutadas e, ao falarem ao mesmo tempo, criam uma sensação de complexa confusão. Em outros momentos se ouve apenas a respiração da personagem e a claustrofobia toma conta da sensação imposta ao jogador.

Jogo apresenta realismo, principalmente em momentos onde utiliza as sombras.

Gráficos

O gráfico do jogo é produzido com a Unreal Engine 4, a mesma de Gears of War 4 e Street Fighter V, apresentando um visual que mescla o realismo com o fantástico. A passagem entre cutscene e jogo é bastante direta, não existindo propriamente uma separação.

Principalmente em elementos que usam as sombras (o que são muitos) os gráficos do jogo se sobressaem, passando uma sensação de realidade fantástica perturbadora.

Conclusão

Helblade: Senua’s Sacrifice se mostra como um título essencial, reutilizando muitos elementos já consolidados em games para trazer a sua mensagem e mostrar ao mundo um pouco do que se passa com pessoas que vivem com transtornos mentais, principalmente os que geram algum tipo de psicose.

O título se mostra arrojado ao não delinear um limite entre o fantástico e a doença mundana, deixando a cargo do jogador compreender tudo aquilo, porém deixa claro a doença da personagem utilizando até mesmo a hereditariedade ao demonstrar que a mãe de Senua também apresentava aqueles transtornos e tinha a “escuridão” dentro de si.

Porém vale ressaltar algo que até é apresentado no início do jogo: Se você já sofreu com episódios psicóticos e/ou apresenta uma sensibilidade grande para o tema, ele não é recomendado. A emulação da doença pode ser um gatilho para pessoas dentro de um grupo de risco.

Eu mesmo apenas consigo jogar o game em doses homeopáticas de no máximo uma hora, pois ele acaba me afetando um pouco por conta da imersão absurda que causa. Porém, jogando ou não, fica óbvio que Hellblade é uma obra de arte que precisava existir e pode balançar a indústria dos games ao se tornar um marco da linguagem utilizada nessa tecnologia.


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Rafael TAB

Rafael tem 26 anos e mora no interior de São Paulo. Diagnosticado com transtorno bipolar é fissurado por cultura pop e nerd desde os 9 anos de idade quando foi apresentado ao sítio do Pica Pau Amarelo e logo depois ao fantástico mundo de Harry Potter. Hoje é um grande fã de O Senhor dos Anéis e Star Trek. Tem fascinação por áudio-visual, tecnologia e games.

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