Harvey Weinstein e a Questão Econômica da Consensualidade
Não são esses homens maus ou aquela indústria suja. É esse sistema econômico desumano do qual todos fazemos parte. Como produtora e consumidora. Como contadora de história e ouvinte. Como ser humano. Essa é uma verdade realmente desconfortável. Mas, talvez, desconforto seja algo necessário para nos movermos in direção à um mundo humanizado para o qual todos daremos livremente o nosso consentimento.

Harvey Weinstein e a Questão Econômica da Consensualidade

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A atriz Brit Marling, que atuou em The OA, O Sistema e Universo no Olhar, também é economista formada e escreveu um texto para o The Atlantic. No texto, disponível aqui, Marling discorre sobre os abusos sexuais de Harvey Weinstein e traça um paralelo com a realidade econômica e a consensualidade. Confira a tradução, feita por mim, abaixo.


Quando a história de Harvey Weinstein veio à tona, eu pensei em algumas coisas que minha mãe me disse quando eu era pequena. Ela disse: Para ser uma mulher livre, Você precisa ser uma mulher financeiramente independente. Ela não estava errada. Eu estudei economia na universidade e fui para Nova York para me tornar uma banqueira de investimento. Para ser franca, eu queria a liberdade que o dinheiro poderia comprar.

Tive uma mudança súbita em meu coração enquanto trabalhava para a Goldman Sachs como analista no verão. Eu decidi que, se o mundo me obrigava a vender horas de minha vida em troca do acesso ao que deveria ser gratuito, como comida, água, moradia, queria, ao menos, estar fazendo algo que agitasse minha alma. Essa é, certamente, uma posição privilegiada (NT- e difícil de ser conseguida). Mas, como uma jovem mulher, essa foi a decisão que eu tomei.

Eu havia descoberto a atuação e a produção de filmes na universidade e, quanto mais tempo em passei imersa nisso, mais eu gostava da pessoa que eu me tornava. Eu escutava com mais atenção. Eu era mais empática e imaginativa. Essas são as qualidades que me parecem culturalmente em declínio; Nossa cultura gosta de conservadores com pensamentos avançados, que podem criar lucros sem se sentirem culpados pelas pessoas que sofrem — normalmente pessoas pobres, negras e mulheres. Atuar parecia uma coisa nobre e, até mesmo, um pequeno ato de resistência.

Hollywood era, certamente, um despertar rude para esse tipo de idealismo. Eu rapidamente percebi que a cidade funcionava tendo como base uma suave e, às vezes literal, cultura de tráfico e prostituição de mulheres jovens (uma mercadoria básica com uma oferta infinita e uma demanda sem fim). Os contadores de história—as pessoas com poder econômico e artístico—são, em sua maioria, homens brancos heterossexuais. Em 2017, mulheres compõe apenas 23 porcento dos assentos na Associação dos Diretores dos Estados Unidos e apenas 11 porcento dessas cadeiras são compostas por pessoas negras.

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Homens brancos heterossexuais tendem a contar histórias a partir de suas perspectivas, o que, naturalmente, faz com que mulheres sejam naturalmente subscritas (NT: personagens sem nuances e profundidade). Elas nem mesmo precisam de nomes; “garota de biquíni” e “loira número 4” são papéis para os quais eu já tive que fazer testes. Se as personagens femininas tem sorte suficiente para terem nomes, elas são escritas apenas para levantarem questões que levam à um monólogo masculino, ou são rapidamente mortas para acelerar o avanço da história.

Uma vez, quando eu estava na fila para um teste aberto para um filme de terror, lembro de ter me olhado no espelho e percebido que eu estava vestida como um objeto sexual. Todas as mulheres que iriam fazer o teste para “a enfermeira” eram parecidas. Todas nós estávamos internalizando, em algum nível, a ideia de que, se nós gostaríamos de ser escolhidas, precisávamos oferecer o que era desejado. Não o nosso talento artístico. Não a nossa imaginação. Mas, sim, nossos corpos.

Foi nessa época em que me lembro de me sentar em uma reunião casual em que um ativista homem, branco e hétero me disse: “Nosso gênero e raça tem todo o poder. Então, quando eu quero fazer sexo com uma mulher, preciso perguntar e obter o consentimento verbal”. Ele continuou: “Se essa mulher é uma mulher de cor, ela é oprimida tanto pelo seu gênero quanto pela sua etnia, então você deveria pedir, realmente, duas vezes.” O literalismo de sua declaração era ridiculamente reducionista e seu tom era completamente fora da realidade, mas eu apreciei que ele estava tentando articular o quanto era complicado negociar as forças invisíveis de privilégio e poder inseridas em um encontro sexual. Ele estava tentando ajudar outros homens jovens a entender o porquê pode ser difícil para qualquer mulher encontrar sua voz e dizer “não” dentro de uma cultura que a ensinou a desconfiar de si mesmo e a se valorizar através de uma aprovação masculina.

Cena de A Outra Terra, um dos filmes roteirizados por Marling e elegidos para o festival de Sundance.

Eu saí desse período refletindo sobre a dinâmica de poder dentro de Hollywood. Se os testes para filmes eram, em grande parte, a busca pela aprovação masculina, e as próprias histórias eram narrativas com as quais eu nem sempre concordava politicamente e moralmente, então o único caminho para navegar por Hollywood com mais ação seria me tornando uma roteirista. Isso era uma coisa fácil de se falar e uma coisa muito difícil de se fazer. Eu parei de fazer testes. Eu trabalhava durante o dia e passava as noites e finais de semanas na biblioteca do centro da cidade lendo livros sobre roteirização. Eu fiz isso por anosEventualmente, eu co-escrevi e estrelei dois filmes, que tiveram muita sorte em serem selecionados para o festival de Sundance em 2011.

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Estou levando vocês para essas breves histórias, pois eu as acho importantes para compreender que, quando Harvey Weinstein solicitou uma reunião comigo em 2014, quando a indústria havia entendido que eu era uma legítima carne-fresca, eu estava, de alguma forma, em uma posição levemente diferente de muitas que estiveram ao alcance se suas garras antes de mim.

Eu, também, fui para essa reunião pensando que, talvez, toda a minha vida estivesse prestes a mudar para melhor. Eu, também, fui convidada à encontrá-lo em um bar de hotel. Eu, também, encontrei uma jovem assistente mulher que me disse que a reunião havia sido mudada para sua suíte, nos andares superiores, pois ele era um homem de negócios muito ocupado. Eu, também, levantei minhas guarda, mas fui acalmada pela presença de outra mulher da minha idade perto de mim. Eu, também, senti terror no fundo do meu estômago quando a jovem mulher deixou o quarto e eu fiquei completamente sozinha com ele. Eu, também, fui perguntada se precisava de massagem, champanhe e morangos. Eu, também, sentei naquela cadeira paralisada pelo medo quando ele sugeriu tomarmos banho juntos. O que eu poderia fazer? Como não ofender esse homem, o abridor de portas, que poderia me abençoar ou me destruir?

Estava clara qual era a única direção que essa reunião poderia seguir. Era para o sexo ou para algum tipo de favor sexual. Eu fui capaz de me recuperar, em um conjunto de nervos em chamas, mãos tremulantes, voz perdida em meu pescoço, e deixei o quarto.

Mais tarde, eu me sentei em meu quarto de hotel sozinha e chorei. Eu chorei porque eu havia subido naquele elevador quando me conhecia melhor. Eu chorei porque eu o havia deixado tocar meus ombros. Eu chorei porque em outros momentos da minha vida, sob outras circunstâncias, eu não consegui ir embora.

Até esse ponto, muitas mulheres tomaram a frente para contar suas histórias sobre serem molestadas ou assediadas por Weinstein. Todas elas são corajosas, inclusive aquelas que não encontraram um jeito de sair. Eu pensei por mim, eu fui capaz de sair do quarto de hotel de Weinstein naquele dia porque eu havia entrado como uma atriz, mas também como uma roteirista e criadora. Ds duas personas em mim, atriz e roteirista, a roteirista foi quem se levantou e saiu. Porque uma roteirista sabe que, mesmo se um homem muito poderoso nunca lhe desse um trabalho em nenhum de seus filmes, mesmo que ele a colocasse em uma lista negra para outros filmes, ela poderia fazer o seu próprio trabalho e em seus próprios termos, podendo, assim, manter um teto sobre sua cabeça.

Eu estou contanto essa história porque no calor do momento que envolve essas corajosas confissões, é importante pensar sobre a questão econômica da consensualidade. Weinstein era um abridor de portas que poderia dar à atrizes uma carreira que poderia sustentar suas vida e suas famílias. Ele também poderia lhes dar fama, que é uma das poucas maneiras de mulheres ganharem alguma sombra de poder e voz dentro de um mundo patriarcal. Elas sabiam disso. Ele sabia disso. Weinstein poderia também assegurar que essas mulheres nunca mais trabalhariam novamente caso elas o fizessem se sentir humilhado. Isso não é apenas um exílio emocional ou artístico, isso também é um exílio econômico.

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É importante, também, ter em mente a fonte desse desequilíbrio de poder. Nos Estados Unidos, mulheres apenas tiveram a permissão para terem cartões de crédito em seu nome há 43 anos. Homens tiveram duas décadas de vantagem (o cartão de crédito foi intentado em 1950). Nos anos 60 mulheres precisavam estar acompanhadas por um homem para requisitarem qualquer pedido de crédito. É impressionante perceber o quão recentemente as mulheres receberam autonomia financeira. Isso está, é claro, conectado com o fato de que mulher ainda não possuem autonomia sobre seus próprios corpos. Até os anos 70, o marido de uma mulher poderia agredi-la ou fazer sexo não consensual com ela, sem que fosse possível qualquer processo legal.

Para mim, tudo isso recaí para o seguinte: As coisas que acontecem em quartos de hotel e salas de reunião ao redor de todo o mundo, e em todas as indústrias, entre mulheres buscando emprego ou tentando manter seus empregos e homens que detém o poder para garantir ou acabar com tais possibilidades, existem em uma área cinza onde palavras como “consentimento” não conseguem capturar a complexidade desse encontro. Porque o consentimento apenas existe com o poder. Você precisa ter um pouco de poder para dá-lo. Em muitos casos, não tem esse poder, pois seu sustento está em perigo e porque elas são o o gênero oprimido diariamente em uma guerra contra tudo o que é considerado feminino, contra qualquer ser humano que se sente, se veste, pense, sinta ou pareça com algo feminino.

Esse é um momento poderoso, no qual pessoas corajosas começaram a falar sobre como elas foram feridas, o que é algo profundamente difícil de se fazer porque significa caminhar por um pântano de vergonha, a qual você foi levada a sentir. Eu estou inspirada por todas elas. Devemos deixar que suas forças nos guiem pelo caminhos a seguir, o que significa iniciar um longo debate sobre o papel que a desigualdade econômica desempenha na cultura do estupro.

Os homens possuem a maior parte da riqueza mundial. Na realidade, apenas oito homens possuem a mesma riqueza que as 3.6 bilhões de pessoas que compõe a metade mais pobre da humanidade, a maioria das quais, segunda a Oxfam, são mulheres. Como todo um gênero, mulheres são pobres. Isso significa que, em parte, interromper o assédio e o abuso sexual envolverá a luta por paridade salarial. Isso também significa que mulheres e homens com poder precisam se virar e contratar mais mulheres, especialmente mulheres negras, especialmente mulheres que não cresceram com privilégios econômicos.

Outro passo importante a seguir seria o de todos nós começarmos a contar e consumir histórias diferentes. Se você não quer fazer parte de uma cultura em que abusos sexuais e assédios são desenfreados, não compre ingressos para um filme que promova isso. Eu sou tão culpada disso quanto qualquer outra pessoa; às vezes é bom aproveitar um filme que é uma distração, um espetáculo épico. Mas, talvez, seja tempo de imaginar mais filmes que não usem a exploração do corpo feminino ou a violência contra mulheres como motivos para serem vendidos e assistidos. Filmes com equilíbrio de gênero e equilíbrio racial refletem melhor o mundo no qual nós todos vivemos atualmente. Esses são desafios que eu mesma estou tentando superar, como uma criadora de séries, e, de modo algum, eu consegui fechar a lacuna entre o tentar e o conseguir superar tal desafio.

Parte do que a mantém sentada naquela cadeira, daquele quarto, sofrendo assédios ou abusos de um homem no poder é que, como mulher, você raramente viu outro fim para si mesma. Nos livros que você leu, nos filmes que você viu, nas histórias que você ouviu desde o nascimento, as mulheres frequentemente encontram fins desastrosos. O perigo real dentro do momento atual, então, seria o de que todos nós separássemos as alegações feitas sobre Cosby, Ailes, O’Reilly ou Weinstein de uma cultura que continua a permitir desequilíbrios gigantescos de poder. Não são esses homens maus ou aquela indústria suja. É esse sistema econômico desumano do qual todos fazemos parte. Como produtora e consumidora. Como contadora de história e ouvinte. Como ser humano. Essa é uma verdade realmente desconfortável. Mas, talvez, desconforto seja algo necessário para nos movermos in direção à um mundo humanizado para o qual todos daremos livremente o nosso consentimento.


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Rafael TAB

Rafael tem 26 anos e mora no interior de São Paulo. Diagnosticado com transtorno bipolar é fissurado por cultura pop e nerd desde os 9 anos de idade quando foi apresentado ao sítio do Pica Pau Amarelo e logo depois ao fantástico mundo de Harry Potter. Hoje é um grande fã de O Senhor dos Anéis e Star Trek. Tem fascinação por áudio-visual, tecnologia e games.

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