FIFA, PES, Football Manager, futebol Brasileiro e diversas tretas
Football Brasileiro ainda precisa enfrentar diversos desafios no mundo virtual

FIFA, PES, Football Manager, futebol Brasileiro e diversas tretas

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Quem é fã de esportes virtuais, certamente já passou em algum momento por alguma dessas franquias. Fifa, Pro Evolution Soccer e Football Manager hoje são os grandes projetos que levam o esporte mais popular do mundo ao ambiente virtual. Enquanto PES e Fifa apresentam um conceito clássico de controle de jogadores, Football Manager coloca o gamer no papel de treinador e gerenciador do time, sem que o controle sobre os atletas esteja em suas mãos.

Football Manager, da Sport Interactive, é um dos games de futebol de maior fama no Brasil, representando os jogos manager que iniciaram suas histórias por aqui com os clássicos Elifoot e Brasfoot. A ideia é trazer o maior realismo possível e, para isso, o game conta com uma base de dados gigantescas que oferece uma quantidade absurda de jogadores, competições, times e corpo técnico. No Brasil não é diferente e, nos últimos anos, a série A e série B, além dos estaduais e outros torneios estão representados no jogo.

Fifa, da EA Sports, tenta um realismo próximo ao de FM, trazendo diversas ligas, jogadores e times do mundo todo. Fifa ainda tem o diferencial, por ser um jogo de controle, de trazer o corpo e rostos dos atletas diretamente para o mundo virtual, tentando sempre fazer isso da forma mais real possível. Sua competição direta é com o Pro Evolution Soccer, da Konami, que traz uma experiência parecida com o Fifa, mas com um realismo um pouco mais controlado, trazendo uma menor quantidade de ligas e times.

Mas, falando sobre o Brasil, todos esses jogos encontram uma dificuldade bastante semelhante em abordar um realismo com o futebol Brasileiro.

Utilizando como exemplo a Premier League, o principal torneio da Inglaterra, as produtoras apresentam um método similar. Conversam com as federações para garantir a presença da liga e torneios relacionados, com seu nome real e logo oficial, assim como os times filiados à essas federações. Já para trazer os jogadores, são feitos acordos diretamente com a associação ou sindicato a quais esses jogadores estão filiados. Esse sindicato faz a negociação de liberação do uso de direitos de imagem de todos os seus filiados. No Pro Evolution Soccer isso historicamente trouxe algo interessante, pois, mesmo quando algum time rejeitava a negociação para aparecer no game, seus jogadores ainda assim eram aproveitados em times com nomes e logos diferentes, mas que representavam as equipes reais no jogo. Isso ocorreu na Premier League por muitos anos, mas já foi modificado na versão atual.

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Esse modelo de negociação acaba trazendo problemas quando chega em terras brasileiras. A começar pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) que acaba emperrando muito as negociações. Nesses últimoss anos, o nome e logo do Campeonato Brasileiro foi uma exclusividade da Konami. Os valores da negociação não foram revelados, mas o contrato acabou privando que o campeonato brasileiro e outras competições nacionais estivessem presentes com nomes reais e logos em Fifa e Football Manager. Financeiramente deve fazer sentido, mas isso retira o campeonato brasileiro de uma das atuais maiores vitrines do futebol (Fifa vende cerca de 20 milhões de cópias por ano, enquanto PES vende cerca de 2 milhões). Nossa federação é arcaica, além de estar inserida em diversos escândalos de corrupção nos últimos anos. Isso faz com que desconfiemos desses acordos firmados.

Mas é com a questão de imagens de times e jogadores que o problema se torna ainda mais grave. Por muitos anos, Fifa utilizou o nome real e aparências similares em jogadores do campeonato brasileiro em seus games. A treta é que a EA Sports jamais pagou pela utilização da imagem desses jogadores. Atualmente o sindicato dos jogadores de São Paulo está processando a empresa em cerca de 50 milhões de reais, pela utilização irregular de atletas por mais de 15 anos. Além disso, outras associações, como a baiana, catarinense e mineira estudam a possibilidade de processarem a empresa também. Convenhamos que não são grandes valores para a EA Sports, que, apenas com a série Fifa, teve lucro líquido de 2,3 bilhões de reais em 2016. Porém, a série vem perdendo times ao longo dos anos, que fecham contratos de exclusividade com a Konami por intermédio da CBF: Flamento, Vasco, Corinthians e Palmeiras já são exclusivos do game da Konami e não aparecem mais em Fifa. Mas por que isso acontece?

Um dos grandes problemas na realidade brasileira é a falta de força e de unidade dos sindicatos que representam os atletas. Isso, em conjunto com as falhas estratégias adotadas pela CBF, faz com que seja muito difícil fazer negociações para a utilização de nossas competições, times e atletas. A Konami, aos poucos, vem encarando esse desafio ao adotar a estratégia de negociações particulares com times, jogadores e a CBF. Isso vem ocorrendo vagarosamente, por conta da dificuldade em fazer negociações dessa maneira. Porém, convenhamos, de todas as franquias de Futebol, atualmente PES é a mais fraca delas. Mesmo vendendo mais que Football Manager, que alcança cerca de 1 milhão de cópias, mas tem um custo de produção bem mais baixo, PES está competindo em uma frente diferente e tem como seu principal concorrente o Fifa. Há anos o game da EA vende 10 vezes mais do que o game da Konami. Isso faz com que, apesar da dificuldade, seja interessante para a série PES construir lentamente essa hegemonia de representação do Futebol Brasileiro, pois há a expectativa de que isso faça com que seu mercado em nosso país seja inflado nos próximos anos.

Esse modelo de negociação não interessa para quem é hegemônico no mercado. Fifa se mantém muito bem, mesmo sem contar com os principais clubes do Brasil, afinal o futebol europeu está cada vez mais presente em nossa realidade e os gamers acabam optando jogar com Barcelona, Chelsea, Manchester United e outros na falta de seu clube do coração.

Imagem da engine para assistir jogos de Football Manager 2018, que não é vendido no Brasil.
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Já para Football Manager a questão foi bem mais difícil e impactante. A série precisa do futebol brasileiro para garantir sua emulação do mundo real, afinal ainda revelamos grandes jogadores e nossos times várias vezes estão disputando títulos mundiais (Esse ano, provavelmente, seremos representados pelo Grêmio). Seria incabível não contar com os times e jogadores brasileiros em sua base de dados, mesmo que os emblemas sejam falsos e os nomes de clubes sejam alterados (O Flamengo virou o Flamingo. Hehehe!). Ao mesmo tempo, arcas com os custos de negociações individuais com vários clubes e atletas seria ainda mais complicado e custoso no desenvolvimento do game. Não valeria a pena. Por esse motivo, para driblar eventuais questões legais, o Football Manager deixou de ter venda oficial em território brasileiro desde 2016. Certamente o lucro perdido dessa decisão foi menor do que os custos envolvidos em uma eventual negociação cansativa com times e jogadores.  Isso representa uma enorme perda para o futebol brasileiro como um todo.

Se analisarmos o impacto do futebol virtual para os times e jogadores, vemos que eles não são tão importantes economicamente. Um jogador da Premier League recebe o equivalente a 20 mil reais anuais por direitos de imagem, o que não chega nem perto do valor de seu salário mensal pelo clube em que joga. O contrato de exclusividade do Corinthians e do Flamengo com o PES não os tornou mais ricos, sendo que o Corinthians, mesmo sendo campeão brasileiro, foi um dos times que menos gastou esse ano. Porém, a presença de clubes e jogadores no mundo virtual, tem um impacto direto na expansão de sua imagem.

Aqui, eu apresentei apenas números de vendas, sem contar os downloads piratas. Football Manager 2013, por exemplo, apresentou uma falha em seu crack (arquivo que libera o jogo) que possibilitou que a Sport Interactive descobrisse o número de downloads piratas do seu game. Mais de 10 milhões de pessoas tiveram acesso ao jogo pirateado apenas por meio desse crack que continha essa falha. Outros craques não foram contabilizados. Isso estima que um número 10 vezes maior do que o número de pessoas que compraram o game. Agora imagine isso nas séries Fifa e Pro Evolution Soccer… Imaginou?

Essa realidade faz com que o alcance dos times, competições e atletas por meio do ambiente virtual seja enorme e todo esse alcance se converte em publicidade. Não é difícil especular que uma boa parte dos atuais brasileiros que são fãs de times europeus, entraram em contato com esses clubes mais por meio dos games do que por meio de transmissões de jogos reais. Não é difícil especular que o número de gamers de futebol no Brasil ultrapasse qualquer transmissão individual do esporte, principalmente entre os jovens.

Não estar presente nessas séries, principalmente em Fifa, significa perder espaço e torcedores para o futebol Europeu. Mesmo aqueles que entraram em contrato de exclusividade com a Konami estão perdendo nesse quesito. Ver nossos times e jogadores nacionais perdendo espaço dessa maneira, significa ver o futebol brasileiro como um todo perder espaço também. Tristeza é o único adjetivo que resume essa situação.

E esse texto apenas conta a realidade do futebol Virtual. Ter uma Confederação Brasileira de Futebol tão zuada (não tem outro adjetivo que caiba) e sindicatos de jogadores tão enfraquecidos não faz apenas com que percamos oportunidades contratuais no futebol virtual, mas também faz com que a vida de jogadores e clubes, em especial os que não fazem parte da elite do futebol, se torne cada vez mais complicada e menos segura. Em todos os quesitos, é necessário uma democratização do futebol brasileiro, para que os jogadores e seus sindicatos sejam fortalecidos e possamos retirar o esporte das mãos dos velhos crápulas das cúpulas da CBF e das federações estaduais.

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Não nos deixemos enganar pelo bom momento de nossa seleção e os fortes jogadores com os quais ainda podemos jogar nos torneios europeus de Fifa, PES e Football Manager. Não é por menos que neste ano tivemos o campeonato brasileiro mais feio dos últimos anos, segundo José Trajano e outros especialistas no esporte.

Democratização do futebol, reestruturação da CBF e fortalecimento de sindicatos e associações de jogadores são temas que necessitam serem discutidos para que possamos parar de tomar goleadas de 7×1, tanto no futebol virtual, quanto no futebol real.


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Rafael TAB

Rafael tem 26 anos e mora no interior de São Paulo. Diagnosticado com transtorno bipolar é fissurado por cultura pop e nerd desde os 9 anos de idade quando foi apresentado ao sítio do Pica Pau Amarelo e logo depois ao fantástico mundo de Harry Potter. Hoje é um grande fã de O Senhor dos Anéis e Star Trek. Tem fascinação por áudio-visual, tecnologia e games.

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