Como os videogames podem ajudar a criar uma sociedade mais saudável?
Controles nas mãos certas podem criar um ambiente mais saudável (Foto: Fábio Devito/G1)

Como os videogames podem ajudar a criar uma sociedade mais saudável?

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Há alguns anos trabalhei em uma organização que atuava com Redução de Danos. Resumindo rapidamente, essa estratégia de atuação visa focar nas pessoas e suas relações e não em seus problemas. Focando nas pessoas, conseguimos lidar com os problemas de maneira natural. Nossa atuação prioritária era com pessoas em situação de alta vulnerabilidade social: pessoas em situação de rua, que faziam uso abusivo de drogas e que sofriam severas exclusões sociais.

A relação entre pessoas em situação de risco sempre é complexo. Sempre existe uma falta de confiança extrema com o próximo. Pensando nisso, adotávamos estratégias de melhorar o convívio entre todos e todas. Essa melhoria de convívio trazia uma melhora em suas qualidades de vida. Isso fazia parte do processo de reorganização das pessoas e dos círculos em que elas estavam.

Organizei alguns projetos ali, mas encaro que um dos mais especiais e diferentes foi o projeto “Campeonato de Videogame”. Já havia percebido isso há tempos, mas era incrível o quanto games poderiam gerar impactos sociais naquele público.

A grande maioria nasceu e cresceu nas décadas de 90 e 2000. Eles haviam tido contato com videogames. Mas com a vida ficando mais dura, esse contato se perde. Ao conversar sobre jogos com um deles, percebi o interesse de vários. Tanto entre homens, quanto entre mulheres.
Depois de muita insistência deles, já que no começo tive um certo receio, organizamos os campeonatos. Precisamos de jogos coletivos e em que a consequência da violência não fosse tão focalizada. Já havíamos conversado o quanto a violência visceral fazia mal para algumas pessoas.

Os Games escolhidos foram FIFA 2017, GRID 2 e Injustice: God Among Us.
No início não pensei em um campeonato. Gostaria de fazer uma tarde mais coletiva, com todos se alternando nos controles e podendo se divertir. Porém fui convencido que uma competição atrairia mais gente e criaria maiores interações. Vivendo em uma sociedade que prega a competição acima de tudo, isso seria verdade. Organizamos a competição, mas pensando em formas de como coletivizar aquela atividade.

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Para uma competição ocorrer, precisaríamos de um prêmio. A decisão foi por uma caixa de Bis. Algo que cabia no nosso orçamento e nos nossos objetivos com o projeto.

Os campeonatos então aconteceram. Não lembro quem foram os vencedores. Isso pouco importa. Mas uma coisa acabou se tornando regra e foi muito bom: Todos os vencedores compartilharam com as outras pessoas a sua premiação. Inclusive compartilharam comigo.

Mas o mais importante foi o meio do processo. Durante todas as competições a interação entre eles foi bastante alta. Principalmente entre os que não estavam jogando, nos momentos em que apenas assistiam e aguardavam sua vez. Algumas pessoas que tinham conflitos conversavam tranquilamente no sofá da Associação Pode Crer, que infelizmente foi fechada pelo governo da minha antiga cidade. Isso se deu por conta do avanço do conservadorismo que se apega a estratégias já ultrapassadas e sem evidências de funcionamento.

Nos dias posteriores aos campeonatos, também foi perceptível a melhora da convivência entre as pessoas que participaram do processo. As interações sociais eram melhores e era possível trabalhar algumas questões mais pesadas com maior facilidade.

Duas pessoas com o controle nas mãos. Ao fundo algumas pessoas assistem aos jogos.
Controle nas mãos melhorou a interação entre as pessoas e ajudou a melhorar suas qualidades de vida e lidar com questões complexas (Foto: Fábio Devito/G1)
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Essa experiência me fez observar ainda mais o quanto os videogames, e outras formas de entretenimento e cultura, podem interferir no processo entre as pessoas.

Mas isso vai de encontro com a atual cultura dos games. Cada vez mais eles se tornam tarefas individuais. Mesmo em games online, o caráter individual dos jogos acaba sempre estando em evidência. Isso restringe laços. Transformar as sessões de jogos em uma tarefa coletiva é vital. É uma forma de trabalhar a sociedade individualista em que vivemos.

Por muito tempo a humanidade utilizou jogos como forma de interação social. Porém o avanço do neoliberalismo e sua postura individualista acabou por tomar isso para si. Os atuais jogos se transformam em atividades individualistas. Mesmo ao observarmos jogos coletivos, como o futebol, percebemos que a figura individual de um jogador é cada vez mais evidenciada.

Isso afeta nossas estruturas sociais. Isso nos afasta do convívio. Faz com que nos isolemos. E nosso isolamento apenas facilita para que nossa sociedade torne-se cada vez mais doente.

Que isso sirva de convite. O que está esperando para pegar o controle 2 e chamar aquele seu amigo até sua casa? Ou melhor ainda, chamar aquele seu grupo de amigos para uma atividade coletiva?

Essa experiência foi retratada no jornal G1 Games. Aviso que eles não conseguiram capturar a essência da motivação daquele projeto. A matéria completa pode ser lida no site deles.

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Também indico que escutem o episódio do Overloadr em que eles falaram sobre essa cultura individualista dos games, entre outros assuntos.


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Rafael TAB

Rafael tem 26 anos e mora no interior de São Paulo. Diagnosticado com transtorno bipolar é fissurado por cultura pop e nerd desde os 9 anos de idade quando foi apresentado ao sítio do Pica Pau Amarelo e logo depois ao fantástico mundo de Harry Potter. Hoje é um grande fã de O Senhor dos Anéis e Star Trek. Tem fascinação por áudio-visual, tecnologia e games.

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