Assassin’s Creed e a Luta de Classes

Assassin’s Creed e a Luta de Classes

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Falar sobre jogos que abordam algum assunto político é sempre complicado. Principalmente por, em meio à Dragões, elfos, encanamentos e viagens espaciais, o foco acabar ficando distante da nossa realidade. Quando o jogo é um AAA (Jogos de maior orçamento e grandes vendas) fica ainda mais difícil isso acontecer. No geral veremos a política ser abordada em jogos sobre a segunda Guerra Mundial ou qualquer outra desculpa para acabar com nazistas (que não posso negar, sempre é muito bom). Claramente há algumas exceções. Jogos de fantasia costumam abordar conflitos étnicos, por exemplo, mas, ainda assim, distante da nossa própria realidade. Nesses jogos vemos, no geral, muitas tretas entre elfos, orcs e humanos, cada um defendendo a sua raça como a superior.

Porém há algumas exceções reais. Alguns jogos que vem para o mundo real e estapeiam a cara da sociedade com seu teor político. A série Grand Theft Auto é um exemplo. Se você é um dos raros que acompanham as missões e fazem as atividades extras do jogo (como assistir televisão), verá vários conteúdos e piadas sobre a política atual. GTA utiliza o recurso da ironia com bastante profundidade para se posicionar sobre questões como a Guerra às Drogas, racismo, xenofobia, homofobia e tantos outros.

Ao longo dos anos os games vem se tornando um grande palco para debates mais sérios. A abordagem histórica de algum deles para explicar alguma questão sobre a época acabam aparecendo de vez em quando. Às vezes de maneira inesperada. E foi inesperado o meu contato com Assassin’s Creed, da gigante francesa Ubisoft.

O próprio jogo nasceu de forma pouco usual. Os desenvolvedores da empresa tentavam fazer um novo jogo no ambiente do clássico Prince of Persia, mas o projeto acabou cancelado. Porém, para aproveitar a engine desenvolvida, eles resolveram lançá-la em um novo projeto da Franquia. Deste modo nasceu o Parkour de Assassin’s Creed, game que viria, ao longo dos anos, se tornar cada vez maior.

Com a engine quase pronta (com escaladas, assassinatos e moitinha – ou stealth), era necessário criar uma história para o game. A Ubisoft resolver misturar um enredo histórico com a Ficção científica. Uma civilização muito antiga deixou artefatos poderosos ao redor do mundo. Quem tivesse a posse desses artefatos, teria em mãos um poder de salvação ou destruição. Nos tempos atuais, uma empresa gigantesca do ramo de tecnologia resolve buscar esses artefatos e, para isso, desenvolve um equipamento ultra-avançado que utiliza a memória genética para estudar a história humana e descobrir onde tais artefatos podem estar escondidos. Assim nasceu o conceito da Abstergo.

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O objetivo da empresa é sombrio. Na verdade ela serve apenas de fachada para uma ordem que existe há milhares de anos: Os Templários. A ordem Templaria vem ao longo dos séculos tentando tomar posse desses artefatos, atuando na sombra para cumprir o seu objetivo de dominar o povo pelas sombras. Mas ela tem uma outra ordem antagonista, que também age pelas sombras: Os Assassinos, que dão nome ao jogo.

Essa dicotomia entre Assassinos e Templários é um antagonismo presente em toda a história humana. De um lado os exploradores, buscando dominar os meios de produção para controlar civilizações. Do outro lado os explorados que tenta sempre resistir por meio de uma vanguarda.

Com a tecnologia de memória genética em mãos (que, infelizmente, a ciência já descobriu que não funciona desse jeito), tanto Templários quanto Assassinos, fazem viagens à memórias de antepassados, desbravando a história humana em busca dos artefatos que podem destruir ou salvar a humanidade. Dentro da história vemos essa dicotomia tomar diversas formas e reproduzem o conceito de Karl Marx e Engels:

“A história de toda a sociedade até aos nossos dias nada mais é do que a história da luta de classes.”

Assassin’s Creed (2008)

Logo no primeiro jogo da Franquia, onde somos apresentados à todo o conceito que o jogo viria a ter, somos colocados em uma das épocas de maior dicotomia e exploração da história humana. O jogador entra na pele de Altair, um clérigo muçulmano membro da ordem dos Assassinos. Seus principais inimigos são os Templários europeus.

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O personagem Altair em cima de uma torre.Lembro de ter estudado na escola as cruzadas templárias. Tudo foi muito romanceado. Os templários tentando levar cultura aos países do oriente, espalhando a religião católica, etc. O primeiro jogo da franquia já destrói esse conceito romanceado. Aquilo foi uma guerra entre povos. Os templários não estavam interessados em levar sua cultura e espalhar sua religião simplesmente, mas em dominar os territórios para explorar os recursos, principalmente sedas e especiárias, que existiam ali. A partir do jogo tive contato com alguns livros que abordaram a época e que demonstram o quanto a ordem templária fazia parte de uma política predatória vinda da Europa.

Além disso, o jogo foi lançado durante um período marcado por guerras imperialistas na idade média e uma crescente xenofobia e islamofobia, que permanece até hoje. A proposta de colocar o jogador na pele de um muçulmano foi audaciosa e bem sucedida.

Vários conceitos sobre a luta de classes estão presentes no jogo, recheado por uma trama cheia de conspirações e traições. Ao longo do caminho você encontra alguns “traidores de classe”, que pareciam estar em prol do povo, mas apenas estavam em prol de si mesmo. Infelizmente a mecânica acaba sendo muito repetitiva e, por mais que a história continue atual, a jogabilidade não envelheceu muito bem.

Assassin’s Creed 2, Brotherhood e Revelations – A trilogia de Ezio

Depois do sucesso do primeiro jogo, a Ubisoft resolveu trabalhar em uma trilogia. Assassin’s Creed 2 acabou sendo composto por 3 jogos que abordaram a história de Ezio, um italiano que fazia parte da ordem dos Assassinos. Ezio vê sua família ser morta e descobre uma conspiração sobre segredos guardados por seu pai. Dessa vez o jogo acaba sendo ainda mais audacioso. Se no primeiro jogo o inimigo era a ordem templária, uma ramificação da Igreja Católica, dessa vez o inimigo é o próprio papado.

O personagem Ezio junto com outros assassinos.Não há como negar o poder explorador da Santa Sé naquele período e o jogo aborda como esse poder se ramificava pela Europa. Além disso, o jogo traz personagens históricos dos mais interessantes e inicia algo que se tornaria comum à franquia (e que mais tarde traria dores de cabeça à Ubisoft Brasil): a relação entre o seu personagem fictício com personagens reais. A família Borgia é o principal inimigo do jogo, mas também desenvolvemos relações com Leonardo da Vinci, Maquiável, a família Sforza. O jogo se passa na Itália durante a maior parte do tempo, mas também há visitas à Portugal, Espanha e França ao desenrolar da história.

Assassin’s Creed 3

Connor segurando um machado e rodeado de lobos aliados.Na terceira parte da franquia entramos na pele do personagem Ratonhnhaké:ton, um indigena da tribo Mohawk que tem como pai um nobre inglês da ordem dos Templários, que acaba se tornando um dos personagens mais complexos da série: Haytham Kenway. Logo de cara já somos apresentados à um conceito histórico bastante impactante. Ratonhnhaké:ton precisa ir para a sociedade dos homens brancos e para isso, acaba tendo que se despir de seu nome, de sua ancestralidade, cultura e até mesmo identidade. Somos então apresentados à Connor Kenway que, negando seu pai, acaba se tornando membro da Ordem dos Assassinos.

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O jogo se passa durante a Guerra pela independência dos Estados Unidos. De um lado temos Estadunidenses e Franceses, do outro a Inglaterra, maior potência militar da época. Connor ao longo do caminho vai tentando escolher um lado, mas é notável a sua percepção de que, não importando qual lado vença, ele e sua história serão derrotados. A história culmina com a destruição de sua tribo, que não passava de uma terra à ser explorada pelos dois lados exploradores em conflito.

O estudo sobre a cultura Mohawk é bastante aprofundada no jogo, assim como a destruição causada na América pela exploração europeia em nosso continente.

Assassin’s Creed 4: Black Flag

Por muito tempo eu pensei em Assassin’s Creed 4 como uma pausa no debate político da franquia para uma diversão de pura pirataria. Grande parte do jogo se passa no mar e somos apresentados à cultura pirata do Caribe. Dessa vez somos apresentados ao avô de Ratonhnhaké:ton, um Assassino Inglês que acaba se envolvendo com a pirataria caribenha e entrando em conflito com a Ordem Templária que controlava a Marinha Inglesa. Porém ao longo do tempo, e aprofundamento, comecei a perceber o quanto o jogo se relacionava com a teoria de Banditismo Social.

O protagonista em um návio, rodeado de piratas. Entre eles está Barba Negra.É o jogo em que é mais necessário entender o quanto a realidade apresenta consequências ligadas de uma maneira complexa às suas causas. Quem eram os piratas? Eram populações negligenciadas e que, na falta de oportunidades melhores, se envolviam com roubos, assassinatos e outros meios aos quais muitas críticas precisam ser feitas. É possível traçar uma relação forte com a atual figura do traficante, deixando escancarado que eles são um problema a ser combatido, mas também uma consequência de um problema muito maior como base. Além de um problema, eram frutos de uma político exploratória que deixa a classe explorada cada mais em condições extremamente difíceis e que, na falta de perspectiva, acabam abraçando as oportunidades que aparecem, mesmo quando elas são problemáticas.

É o jogo da série que apresenta as maiores nuances sobre a luta de classes e, talvez, um dos que mais conversam com a nossa atual realidade.

Assassin’s Creed Unity

Unity iniciou a fase dos jogos ruins da franquia. A pressão para o lançamento de um jogo por ano acabou fazendo com que a equipe de desenvolvimento pecasse de diversas formas. Certamente foi o game que eu menos joguei da série. Porém sua premissa é bastante interessante: Dessa vez você é colocado em meio à revolução francesa. Você é Arno, filho de um homem da Ordem dos Assassinos que é adotado por um líder da ordem templária. Sem saber do seu drama familiar ele acaba se juntando aos Assassinos após a misteriosa morte do seu pai. Além de tudo você ainda é apaixonada por uma Templária chamada Elise. Tudo para dar errado na vida do pobre Arnô.

Arno observa alguns soldados de cima de um prédio. A imagem lembra bastante a fotografia: A tomada de Berlim pela União Soviética.Logicamente o personagem principal assume o lado das forças revolucionárias e ajuda a derrubar a coroa, porém sua compreensão de mundo começa a mudar. É o game mais filosófico da franquia, trazendo mudanças de pensamentos que muito se relacionam à mudança do modelo de produção, afinal estávamos acompanhando a lenta passagem do feudalismo para o capitalismo. As coisas seriam muito diferentes daqui para frente.

Assassin’s Creed Syndicate

Syndicate foi o jogo da série que mais trouxe tretas antes do seu lançamento. Ao ambientar um jogo em meio à revolução industrial, a Ubisoft resolver trazer Karl Marx como um dos principais aliados da dupla de protagonistas Jacob e Evie. Tudo bem que Karl Marx tava meio reformista demais, mas a mera presença do personagem como um aliado causou repercussão negativa ao jogo em meio à públicos mais conservadores.

Dessa vez era evidente o Capital como principal inimigo e, se relacionando ao título do jogo, a Ordem dos Assassinos tem um vínculo bastante estreito com o surgimento dos sindicatos dos trabalhadores, para a defesa destes contra a burguesia exploradora. É o jogo que mais se aproxima da nossa realidade atual, trazendo relações de trabalho capitalista ao foco do desenvolvimento de sua história.

Os protagonistas são, inicialmente, os mais inconsequentes da franquia, mas também trazem o maior amadurecimento de personagens que se deparam com a dura realidade da Inglaterra durante o implemento da industrialização.

Com uma mulher como protagonista, foi o primeiro jogo em que questões sobre o machismo foram abertamente colocadas.

Assassin’s Creed Origins

O último jogo da franquia principal nos faz retornar ao passado longínquo. É a primeira vez em que somos transportados para uma época anterior ao Cristianismo. Dessa vez encarnamos o personagem Bayek, um Medjai, protetor do Egito e de Aya. Durante o game ainda não existe a ordem dos Assassinos ou Templários, como o próprio título demonstra, é revelado a origem de ambas.

A história se desenvolve durante a Guerra civil entre Cleopatra e Ptolomeu pelo trono do Egito. Ptolomeu recebe apoio Grego, porém na realidade o game retrata a exploração grega no Egito. Enquanto isso, Cleópatra busca o apoio romano para tirar seu irmão do trono. Durante o início do jogo, somos colocados ao lado de Cleópatra a ajudando a conquistar o trono, porém logo percebemos que a rainha não representava nossa classe. Em uma aliança com Júlio Cesar, dessa vez o povo egípcio passa a ser explorado pelos romanos e Bayek é traído pela nova faraó.

Após tal traição, Bayek percebe o surgimento de uma ordem que opera das sombras e manipula os poderes dos reinados, explorando o povo para alcançar seus objetivos. Portanto, ele chega a conclusão que é necessário se criar uma ordem que atue também nas sombras os combatendo.

Além disso, o jogo tem um forte laço histórico com o inicial do conceito racial como o conhecemos hoje, e que propicia o racismo da nossa sociedade.

Extra: Abstergo

Durante todo o game, somos apresentados a alguns momentos que se passam em um presente alternativo. Nela somos apresentados aos atuais Assassinos, completamente quebrados e desorganizados, que tentam reerguer sua ordem e aos Templários, que controlam gigantescas multinacionais capitaneadas pela Abstergo. As viagens aos tempos atuais no game em que todo o conceito é apresentado, também apresenta um conceito trabalhado dentro de várias teorias econômicas e políticas. A diferença de poder entre exploradores e explorados jamais esteve tão grande quanto agora, mas, ao mesmo tempo, é necessário apenas um estopim para deflagrar um rebalanceamento entre as forças antagonistas.

 


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Rafael TAB

Rafael tem 26 anos e mora no interior de São Paulo. Diagnosticado com transtorno bipolar é fissurado por cultura pop e nerd desde os 9 anos de idade quando foi apresentado ao sítio do Pica Pau Amarelo e logo depois ao fantástico mundo de Harry Potter. Hoje é um grande fã de O Senhor dos Anéis e Star Trek. Tem fascinação por áudio-visual, tecnologia e games.

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