Análise: The Handmaid’s Tale
A série apresenta mulheres que são escravizadas para serem meros úteros ambulantes

Análise: The Handmaid’s Tale

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A mente humana sempre foi boa em criar ilusões como a de que algo terrível que aconteceu jamais ocorrerá novamente. Isso se mostrou bastante forte com o recente crescimento da supremacia branca nos Estados Unidos e da ultradireita racial chegando novamente ao parlamento alemão após mais de 7 décadas do fim da segunda guerra mundial e da queda do nazismo e do fascismo.

Porém não podemos nos enganar e acreditar que tal ilusão é uma realidade. Nossa história já provou mais do que uma vez a sua natureza inconstante, onde alguns passos são dados para frente, em direção à avanços sociais, e outros passos são dados para trás logo em seguida. Vivemos um momento nos últimos 70 anos de avanço de pautas sociais em busca de igualdade e humanização de todas as pessoas, mas devemos nos lembrar que o número 70 simboliza apenas uma pequena e frágil fração dentro de toda a história humana.

É com essa premissa que a série The Handmaid’s Tale (O Conto da Aia) desembarcou no serviço de streaming Hulu, trazendo um enredo que mostra o Estados Unidos sob um regime ditatorial ultra-religioso, onde mulheres são friamente oprimidas e tratadas apenas como um órgão humano: um útero, capaz de gerar vida e nada mais.

A premissa original da série apresenta algumas lacunas importantes que são melhores abordadas no livro que deu origem a história, O Conto da Aia de Margareth Atwood, como, por exemplo, a questão dos negros dentro do novo sistema, porém trabalha muito bem naquilo que se propõe, evidenciando a opressão sobre as mulheres.

A base da história é a seguinte. Dentro de alguns poucos anos, a humanidade passará por uma crise sem precedentes, em que a questão climática estará em evidência, em que a produção de alimentos encontra-se problemática, desastres naturais são bastante comuns e, apresentado como o principal problema, a humanidade encontra-se sob risco de extinção por conta da infertilidade. Esse cenário traz diversas crises econômicas e humanitárias.

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Como em todo cenário de crise, essa situação possibilita com que ideologias que apresentam soluções simplistas e opressoras cresçam e apareçam. Assim como ocorreu na Alemanha dos anos 30 que enfrentou uma crise econômica e social sem precedentes e que possibilitou a ascensão do governo nazista, isso também ocorreria nos Estados Unidos, onde um grupo de intelectuais religiosos começa a planejar uma situação em que os poderes legislativos, executivos e judiciários centrais do país seriam eliminados em um suposto atentado terrorista e, partir de então, utilizariam o caos gerado para chegar ao poder, apresentando soluções simples e diretas para o enfrentamento de todos os problemas econômicos e sociais vivenciados pela população.

As forças de opressão estão sempre em evidência na série

Esse grupo realmente chega ao poder e resolve algumas questões centrais daquela sociedade, retomando a produção de alimentos e reduzindo de maneira drástica a emissão de carbono e outros gases poluentes. Eles também arquitetam um plano de resolver o principal problema e obtém sucesso, recuperando, em partes, o índice de nascimento de crianças. Porém, para que tudo isso ocorra, há um custo.

Assim como em outras situações reais, a religião acaba sendo utilizada como um meio para um fim. Prefiro sair da explicação simplista de que a religião seria a geradora de problemas para essa sociedade e prefiro me ater ao fato de como os novos detentores de poder resolvem utilizar fundamentos religiosos para darem um enfoque em seu plano de recuperação da sociedade. Para que seu plano funcionasse, a religião é colocada em foco.

Isso também é demonstrado pela esposa de Fred, Serena Joy, que antigamente era uma escritora e que criou a base ideológica para toda a mudança de poder que é mostrado na série por meio de seus livros. Após sua obra ser colocada em prática, toda a sua participação política e escrita são negadas pelos novos detentores de poder e ela passa a ser colocada em um papel subalterno, onde toda o seu intelecto é negado e ela passa tentar a se provar o tempo todo sem sucesso, inclusive sendo uma das maiores opressoras da personagem principal da série. Isso demonstra que não necessariamente o grupo que tomou o poder acreditava na inferioridade feminina, já que utilizaram a obra de uma mulher para gerar sua base, mas que acabaram por colocar em prática essas ideias de inferioridade para a manutenção do seu poder.

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Em nenhum momento da série somos apresentados aos fundamentos que geraram a redução da emissão de carbono e a recuperação do plantio, mas podemos tecer a teoria de que se utilizaram da religião para gerar uma aproximação com a Terra e evidenciar a necessidade de cuidar do meio ambiente e adotarem novas formas de produção e cultivo.

Manifestantes utilizaram a temática da série para protestar à favor da legalização do aborto na vida real

Porém a série enfoca na história das Aias, pessoas que nessa sociedade acabam ocupando o cargo mais importante e, ao mesmo tempo, o mais oprimido pelos poderes estatais. Essas mulheres são condicionadas e treinadas com o único objetivo de gerarem filhos, que serão criados por outras famílias. As famílias dos detentores do poder atual e defensores da religião. São mulheres que são sequestradas, torturadas, separadas de seus filhos e escravizadas pelas “famílias de bem”, pois, de alguma forma não explicada, mas facilmente dedutível, são identificadas como não estéreis.

Para tornar possível que uma sociedade aceite a criação desse papel é necessário gerar uma base ideológica que faça com que isso seja considerado normal e necessário. Para isso eles utilizam novamente a religião, resgatando passagens e ensinamentos que, com uma boa dose de interpretação, justifiquem tais atrocidades.

As ações começam com a desumanização total das mulheres, que tem seus direitos sociais retirados durante o regime de lei marcial imposto após os atentados que vitimaram a estrutura de poder dos Estados Unidos. Primeiro elas são proibidas de trabalhar e logo depois tem suas contas bancárias bloqueadas e todos os seus bens repassados para uma figura masculina próximas, como esposos, irmãos ou pais. Quando pequenos protestos começam a se formar, eles são duramente reprimidos pelas forças militares.

Fica evidente também o papel do homem nessa opressão. Mesmo o mais próximo e companheiro, representado por Luke, o esposo da personagem principal June, acabam, ao invés de se revoltar, fazendo piadinhas da situação. Ele não faz as piadas por ser um sujeito mal, mas por encarar que era necesssário para reduzir a pressão que a situação causava em sua esposa, sem perceber que tal atitude apenas reforçava a opressão sofrida pelas mulheres.

Luke é um retrato de vários homens, que não se enxergam como opressores, porém tem atitudes que, mesmo sem querer, reforçam a opressão. Não devemos jamais esquecer que toda forma de opressão é sistêmica, ou seja, não é responsabilidade ou criação de um único indivíduo, mas gerada por todo um sistema social e econômico que utiliza tal opressão para se manter. É assim atualmente e é assim retratado em The Handmaid’s Tale.

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Nenhuma opressão retratada na série é uma ideia original. Todas as atitudes apresentadas já ocorreram anteriormente na história humana e serviram de base para vários sistemas. O Conto da Aia apresenta apenas mais uma dessas utilizações.

Toda a história se baseia na personagem June e em sua forma de encarar e, aos poucos, aprender a enfrentar o novo sistema. June no passado era uma publicitária, teve um relacionamento extraconjugal com Luke, que era casado, e desta relação seguiu-se um casamento e o nascimento de uma filha. Tudo é retirado dela após ser capturada. Toda a sua personalidade é negada. June perde até mesmo o seu nome e, assim como todas as aias, é renomeada de acordo com o líder patriarcal da família a quem seu útero serve, passando a ser chamada de Offred (em inglês Of Fred, significa de Fred, pertence à Fred). Toda sua história pregressa é negada, com exceção do fato dela ter se relacionado com um homem casado, que é a desculpa para alguns de seus castigos que se baseiam no fato dela ser uma adultera.

Somos jogados na mente de June por meio da premiada interpretação de Elisabeth Moss, que traduz na tela toda a dualidade de sentimentos da personagem em busca de sua liberdade.

June (Elisabeth Moss) e Moira (Samira Wiley) em cena

Outro tema abordado pela obra é a questão da lgbtfobia que se torna base de um poder absoluto religioso que persegue os, assim chamados, traidores de gêneros, tendo como base a impossibilidade destes procriarem e garantirem a sobrevivência da raça humana. Esse conceito não se afasta muito das alegações de atuais lgbtfóbicos que esquecem que o amor entre duas pessoas tem motivações que vão muito além da simples reprodução.

The Handsmaid’s Tale é uma série bastante necessária nos tempos atuais. Ela não precisa nos lembrar das opressões cotidianas, pois isso é algo que vemos cotidianamente e cada vez mais evidente nos retrocessos com os quais nos deparamos dia-a-dia. No Brasil, por exemplo, o judiciário acaba de tomar uma decisão por meio do Superior Tribunal de Justiça que dá poderes para as escolas aplicarem o ensino religioso de maneira confessional, ou seja, não abordando o processo histórico da religião, mas apresentando seus ensinamentos (que podem ser vitimas de todo o tipo de interpretações) e garantindo que escolas poderão escolher uma religião única para ensinar. Além dos riscos evidentes na formação dos nossos jovens, também temos um completo ataque à laicidade estatal e à liberdade religiosa, nos aproximando muito da realidade retratada pela série.

Para aqueles crentes de que alguns horrores da humanidade ficaram no passados, Handsmaid’s nos lembra que as coisas não são bem assim e que a roda-gigante da história pode ser inesperada caso nos retardemos em combater as bases dessas atrocidades diariamente. No livro isso se torna mais evidente, pois toda a história é apresentada por meio de um diário de June que acaba sendo resgatado por uma civilização futurista bastante avançado que encara que aquilo não poderia ocorrer novamente, repetindo os erros cometidos na época em que se passa a série. O livro inclusive tece uma crítica aos revisionistas, ao colocar essa sociedade futura tentando relativizar o que aconteceu com a agora Offred, defendendo que talvez ela tenha exagerado (Negacionistas do holocausto: ATENÇÃO!)

Personagem lésbica é presa e torturada em The Handmaid’s Tale

Conclusão

The Handsmaid’s Tale é uma série que precisa ser assistida por tratar de temas atuais. Vivemos em uma sociedade que tenta negar o passado e resgatar as bases de horrores em que vivemos.

A interpretação de Elisabeth Moss dá um profundidade excelente à trama, assim como toda a ambientação e montagem, que nos levam a realidade vivida pelas aias e por outros personagens apresentados.

Fica a crítica apenas pela série, diferentemente do livro, não ter evidenciado a questão racial também como base de sustentação para a ideologia conservadora apresentada. Com a série se passando poucos anos no futuro (fazendo analogias ao uso do Tinder, por exemplo), é impensável acreditar que essa questão teria sido superada e isso deveria ter sido mostrado.

A história de June já garantiu que terá uma segunda temporada, que agora não acompanhará mais os livros, que deve estrear em meados de 2018.

 


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Rafael TAB

Rafael tem 26 anos e mora no interior de São Paulo. Diagnosticado com transtorno bipolar é fissurado por cultura pop e nerd desde os 9 anos de idade quando foi apresentado ao sítio do Pica Pau Amarelo e logo depois ao fantástico mundo de Harry Potter. Hoje é um grande fã de O Senhor dos Anéis e Star Trek. Tem fascinação por áudio-visual, tecnologia e games.

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